Nota de repúdio (Tristeza do Jeca na cidade grande) – Por Ian Plat

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“Chora minha viola, canta as minhas mágoas, que eu entoo em terça menor, sobre a base harmônica de uma sanfona, canto meu sentimento vago, misto de sofrer e de saudade do que ainda não sei”.

Ah, nosso imaginário compartilhado de brasileiros, felizes com um cantinho, puxadinho, coitadinho, tudo inho. Um dia de cada vez que nem doente, sobrevivendo mais um dia. De vez em quando vem o desconto na bebida, na mulher ou no cachorro, mas sempre com muito amor. Não fazemos muita ideia de como viemos parar aqui, na ilha Atlântica, não conhecemos nossa história nem estamos muito aí pra memória. A gente se satisfaz com uma mitologia rasa e muito vaga, baixa estima por nós mesmos, da nossa história (mas crescemos contra menino de rua, lgbt, pretos, gente mais pobre que nós, grevistas, ativistas, idealistas, fracos, indefesos e mal adaptados em geral). Somos memes políticos. Isso porque somos gente boa, cordiais. Isso aqui é uma versão atualizada do bandeirantismo: o mesmo hardware, ou melhor: mudam os hardwares, mas roda o mesmo software. A gente cochila, boceja, se coça, se encoxa e se vira, improvisa, chama na gambiarra. Preço que se paga por querer leveza no meio da barra pesada. A fuga traz junto sempre aquilo de que se foge. A gente não tem pai, não tem orientação, nem passado, não sabe de onde veio nem pra onde vai. Compulsão pra estranhar quem nos ajuda e adorar profundamente quem nos achincalha ou aprisiona. E pra onde correr dá na mesma coisa, cerca de arame farpado. A elite adora estupidez e premia, e castiga a inteligência, a autossuficiência. Mas talvez a gente aqui abra mão de tudo o mais em prol da liberdade. Mesmo aquela possível na precária condição. Sensação de ser livre e leve mesmo morando numa baiúca, mesmo no meio do barro, mesmo na beira do esgoto a céu aberto. Talvez seja isso acima de tudo, liberdade individual dos pequenos prazeres de cama e mesa. Não dá tempo pra política ou pro coletivo: os enredos são reais, zero abstração, e nos atropelam. A vida é como é aqui e agora, e não há tempo pra especular. Parar e pensar é a não vida. Porque aqui se ama a vida até os ossos, se enredando nela até não poder mais. Criamos as tramas mais mirabolantes e novelescas, superiores a qualquer ficção. “Pensar é estar doente dos olhos”. Então, essa acomodação num espaço mínimo de liberdade estrita, concedida, permitida, pra quem adquire a muito custo um espaço legalmente aceito, acabamos trocando por cada nova enxurrada de absurdos frequentes, recorrentes. E pelo risco de ver se repetir em si os dramas bizarros que sucedem muito perto, resta jogar pra sorte e pro futuro escapar dessa bizarrice caótica brutal, estrutural. E só queremos chegar em casa, no fim do dia, e relaxar da tensão do dia inteiro. Vale a dose viciada de endorfina, naquele cantinho reconfortante da casa. Evidente que tem outros grupos e outras tretas, outras formas de resistência, desconhecidas, abstratas. Resta o cotidiano estreito como liberdade: individualista, inócua, inofensiva, chapada. Desde que não se ouse outras formas de liberdade, essa segue garantida. É o que temos pra hoje.

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