A francesa – Por Priscila Monteiro


  A francesa escreve e escrevo para a francesa, a francesa não responde, então lembro ela é francesa e uso das regras gramaticais que nunca uso, falo com toda a clareza que encontro, para ver se assim me entende a francesa.
         A francesa é meu teste de paciência, quando estamos uma diante a outra uso dos gestos e nos comunicamos como se sempre tivéssemos nos visto, como se fossemos amigas de infância, mas quando longe tenho que lembrar, ela é francesa, tenho que usar de toda a minha ortografia para significar coisas que frente a frente, talvez nem precisasse usar palavras para dizer.
       A francesa é meu teste de descrições, quanto sou capaz de dissecar um instante, um sentimento, um evento, para fazer com que outro que não eu, outro diferente de mim, em criação, em estação e com referências outras tão abstratas, possa entender o que digo. Um algo que conheço desde sempre, mas que nunca tinha pensado em explicar a ninguém, porque cairíamos no obvio.
       A francesa é a prova de que comunicação existe, mas no fundo é falha, tão falha que chega a ser inexistente, porque a francesa pode entender do jeito dela francês o que quero dizer, mas não vai ser exatamente o que disse.
A francesa é um amor, então me desdobro em mil e isso é uma expressão que ela não entenderia, porque na frente dela apareceria uma eu de papel sendo dobrada e desdobrada mil vezes, para tentar fazer valer a nossa comunicação; e quando abrimos o bico que pressinto ser um costume meio nativo, sei que nossas palavras não se encontram, mas quando olhamos na mesma direção não precisamos dizer nada, nosso olhar se encontra dentro dos nossos corações e essa é a única comunicação, aquela do que sente. Não sentiremos nunca igual, mas sentir já é ser igual e os que sentem são capazes de juntar instantes.
     A francesa traduz para mim o que sinto diante do outro, é que ela é francesa então para nós é natural que não sejamos iguais, fica bem sabido desde o inicio, e nossa relação é mais sincera dali em diante, porque somos diferentes, mas podemos procurar nos compreender mesmo com todas as nossas diferenças e nós que nos julgamos tão iguais o tempo inteiro esquecemos de que cada ser humano é único, e possui dentro de si seu próprio sistema de valores e referências. É um trabalho de paciência e amor querer entender e querer explicar, e não é só porque você cresceu no Brasil que entende o valor do Redentor ou da Mata Atlântica, muitas vezes é preciso sentir mais do que ver ou ouvir.
         A francesa mostrou o valor das árvores que sempre via, mas de uma forma que nunca vi, disse que por lá não tem árvores tão grandes e vivas, nunca entenderia que aqui onde estou há uma beleza tão única, rica que se mostra viva. Que aqui tem essa árvore enorme de onde os galinhos caem e as folhas escorrem e a gente pode tocar, essa beleza toda só vi quando a francesa sorriu e correu para tocar num galho que escorria e não disse mais nada, só falou que lá não tinha. Pude sentir um pouquinho do que ela sentia, esse encanto pela falta do que a gente nem sabe que faz falta, a falta daquilo que está aqui todos os dias. A francesa me ensinou ver a minha própria terra como uma terra querida. Ela me falou do amor, esse nosso amor pela vida, que nos faz querer falar com quem quer que seja.

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