Deus não tem caixa postal – Por Priscila Monteiro Santos

A Criação de Adão. Afresco de Michelangelo Buonarotti.

Deus não tem caixa postal – Priscila Monteiro Santos (priscmonteiro.wordpress.com)

                     A música que julgo clássica tocando na vitrola, a bolsa vermelha de bolinhas brancas feita com dois discos pequenos de vinil. O sapato vermelho comprado anos atrás no inverno, o lenço emprestado do guarda roupa da mãe, o cabelo, quase curto, quase comprido, encaracolando enquanto seca.

                     O relógio, adiantado para o horário certo, atrasado meia hora do horário de verão, as mãos por fazer, o rosto com base, sem maquiagem, sem poesia, as dores pelo corpo e o peso das pálpebras, o terço acabado de rezar e a imagem, face de Cristo posto no espelho.

                    Tudo antecede a noite, tudo circunda a noite, tudo feito com esmero, carinho, delicadeza, tudo feito em paz, com jeito, quase perfeito, o melhor que poderia quase o gosto da sobremesa.              

                Arrumada vão dizer às amigas ao verem, questionar por mais de vinte minutos, o assunto da roupa, lembrar de mais dez histórias por conta do sapato, ninguém vai perceber as olheiras, ninguém vai saber da dor, ninguém vai ouvir a música clássica que toca na minha vitrola, só eu e Deus, tem coisas que por mais simples que sejam, nem seu melhor amigo divide com você, porque tem coisas que só a gente aproveita, momentos que são inteiramente nossos. Como tomar banho e sentir-se de alma nova, sentir-se melhor, mais disposto a encarar a vida.

               O carro, o telefone, as conversas, os dias, andar de saltos, doer os pés, mas estar de pé, continuar firme, lutar contra a vida se ela estiver querendo ir, lutar para ficar, lutar para estar, lutar para ser mais que sobrevivente, ser vivente, persistir, seguir.

                A amiga liga as oito para dizer, vamos? Não é de manhã, digo que estou mais que cansada, exausta. No almoço outra amiga já havia feito convite tentador, vamos ao cinema, relaxar um pouco? Bem que queria penso, mas não posso, por mim não posso, tenho uns compromissos inacabados comigo mesma, e se toda hora estiver me doando aos meus prazeres, esses compromissos vão ficando cada vez mais atrasados.

                   Hoje vamos jantar, a noite vai ser gostosa, tentarei em algum instante conversar sobre a Grécia, que é  interessante essa história, por conta de uma dívida com a união europeia ela voltar à moda. Dívida temos todos nós, que ainda usufruímos de toda a cultura legado de Atenas, mas não vai em frente, será apenas comentário.

                   Provavelmente o esmalte novo é uma tendência, na qual não estarei sintonizada, mas vou olhar e achar bonito, tanto quanto o último, “rosa antigo”, até agora não decidi se gosto da cor, ou o nome foi o que cativou.  De qualquer forma, informar-me-ei que o “love” está fora de moda, temporada passada… e que as aulas, as aulas são uma maravilha. Em algum momento questionarão sobre os meus estudos, e com toda a classe direi para não falarmos nesse assunto.

                       Tudo que tenho estudado sou eu e Deus, mais Deus do que eu, mas não vou citar que me ajoelho todos os dias, em que saio de casa, paro em frente ao altar e faço uma visita, converso com Ele, sobre tudo, sobre mais que tudo. E tem vezes em que Ele realmente responde, assim em alto e bom tom.

                       A amiga liga e pergunta onde estamos, estou aqui em casa, ainda nem passou aqui, ai não acredito, nem eu, mas vamos já dar um jeito, vou ligar e saber onde está, meu perfume ainda está infiltrando minhas narinas, sua chamada está sendo encaminhada para caixa…

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