The Singing Butler – Jack Vettriano

A dançarina – Priscila Monteiro Santos (priscmonteiro.wordpress.com)

                       Ela dançara a noite inteira, dançou tanto que acordou com os pés doendo, dançava e amava. Amava como o vento encostava-se a sua face enquanto num movimento ele a rodopiava de seu peito até o centro do salão, do centro para si, era assim, ela, ele e mais ninguém? Não, havia muitos, todos os seres queridos estavam ali, estranhos conhecidos, os que prezava estavam presentes, muitos que a prezavam também a viam iluminada dançar, dançando com a alma e com os pés, numa leveza intraduzível.

                            Girava ao lado dele, ele que ela pensara que não era o par perfeito, aquele para quem ela jamais olhara de outra forma, se encaixava tão bem nas curvas do seu corpo, conduzia suas mãos como ninguém antes havia feito e ela sorria. Sorria a noite inteira, para ele, para ela, para sua própria alma. Ela sorria, sorria e não sabia fazer mais nada além de sorrir, porque toda aquela felicidade estava explodindo dentro dela. Ela sabia dançar, estava dançando, dançando e como era leve e como era feliz, meu Deus! Pensava consigo como algo pode ser tão bom? E Deus como resposta, parece que não a deixava parar.

                            Ela dançou, dançou e ele a segurava em seus braços como um diamante raro, via nos olhos daquele para quem tanto olhara todo amor que havia entregado sendo-lhe doado outra vez, estava sentindo-se bem, começara a sentir-se inteira, começara a perceber os passos da vida.

                            Ela sem querer entendeu a vida não é uma caminhada, é uma dança, uma dança rara, não muito lenta, não tão rápida, no ritmo certo, no tempo do seu próprio corpo, era isso que era aquela vida, uma dança, com piruetas que levam ao centro, e tornam ao peito. Rodopiava pelo salão sem se importar com os que estavam presentes, ela estava ali, estava nela, estava em si, sentido o toque daquelas mãos, que a amaram durante tanto sem que notasse, amava aquelas mãos que a faziam sentir-se leve, sentir-se nova, sentir-se ela, e dançava.

                            Dançou a noite inteira, com ele, com todos, dançou sozinha, pensava em Deus, sempre pensou, mas era incrível como Ele havia estado presente nos últimos tempos, pensou em seu pai, estava longe, uma lágrima escorreu em sua face, não era tristeza, era amor. As tristezas ela já tinha se permitido chorar, uma noite antes, sentara na cama, no quarto de hóspedes e chorou.

                            Chorou por tudo que não tinha chorado, chorou pelo passado, pelos momentos perdidos, pelas histórias não contadas, chorou porque ele estava longe, chorou porque não sabia se tinha dito suficiente número de vezes o quanto o amava, chorou porque estava crescendo e queria que ele estivesse por perto, chorou como uma criança porque não sabia se tinha feito algo para que ele ficasse, mas era uma criança o que poderia fazer? Chorou por não ter sido criança, chorou pela amargura acumulada, porque ficou brava, porque tinha ficado muito mais triste do que supunha, chorou com motivos, porque não aguentava mais chorar sem; chorou tudo que podia, devia e ficou leve, ficou livre, ficou mais em si. Ficou sã, aquela tristeza toda, deu lugar à saudade.         

                            Saudades dos tempos em que ele não esteve presente, saudades do tempo passado, saudades de que ele estivesse ali diariamente ao seu lado e pela primeira vez percebeu que ele estivera ali o tempo inteiro, era ela quem havia se ausentado. Estava fugindo, das próprias lágrimas, do seu jeito desengonçado de dançar, tentando esconder os próprios passos, mas no fundo o que sempre quisera era dançar e quando se permitiu fazê-lo renasceu.

                            Ela queria dançar com ele e dançou, dançou em seus sonhos, ele fora o primeiro a dançar com ela, entregou-a a seu melhor amigo, que a pegou nos braços como se ela pudesse quebrar e eles dançaram. Riu nos seus braços, achando graça da vida, então trocou de par e percebeu como se encaixava bem a ele. Eles sabiam que não eram perfeitos um para o outro, então dançou com um brilho no olhar que nem a ausência da luz apagaria, dançou a noite inteira, dançou com todos, dançou consigo, dançou com Deus.

                            Dançou e percebeu a maestria que era reger a orquestra da vida, não eram apenas composições e músicos, eram também todos os bailarinos e toda a plateia, tudo que ela nem sabia que estivera ali, isso era parte daquela dança, naquele instante de sabedoria se deu conta da falta que sentira durante todo aquele tempo, em que reprimiu o amor que havia em si, que tentou ser outra, porque não sabia mais como ser ela mesma, que tentou fugir e acabou deixando-se louca.

                            Corria para o quarto ao lado e se escondia dos quadros, das prateleiras, das paredes, da cama, do espelho, escondia-se de tudo, mas tudo estava dentro dela, aonde quer que ela fosse seus sentimentos e suas lembranças estavam nela, e ela já não aguentava mais esconder tanto de si mesma, resolveu encarar, abrir as portas para o futuro e confiar a Deus seu presente.