Morning Sun, 1952. Pintura de Edward Hopper.

Silêncio – Priscila Monteiro Santos (priscmonteiro.wordpress.com)

                        Quando a casa esta vazia e a mente descansada, existe um som estranho, demoro a perceber que barulho é aquele e de onde ele vem. Então como se de súbito lembrasse a água fervendo na panela, recordo, esse é o som dos meus passos. É o barulho dos pés descalços a tocarem o azulejo. E de lá pra cá, daqui pra ali, estão a me seguir.

                              Quando tudo em volta silencia, nem sempre estamos em quietude dentro de nós. Mas há tardes, em que antes de começar a preparar o almoço, enquanto o vizinho ainda tem um martelo em punho, e lá em baixo sabe-se que alguém segura uma mangueira, apenas pelo som da água, e quando de repente surgem assobios, e vez por outra um avião, ou outro motorizado cruza a barreira invisível do silencio. Às vezes é em meio a este silenciar só nosso, que conseguimos ouvir nossos próprios passos.

                               Hoje de repente, me dei conta de mim, e como andava com saudades, sem perceber, estava envolvida naquele ritmo frenético da cidade, aquele que acompanham as britadeiras, que constroem o prédio em frente. Mas hoje, ao desligar o micro-ondas, repentinamente me dei conta de que havia alguém em casa.

                                Estava finalmente em mim, colocando a mesa para um, sem tentar me esconder atrás de um livro, ou um vídeo, sem ligar o som para me fazer companhia, apenas eu, o prato e meus passos. Era tudo que se ouvia, e o resto, eram sons tão distantes, quase como se fossem inconscientes, e era mesmo imperceptível; finalmente havia descoberto o meu silencio.

                                  Não me deixei levar pelas dezenas de pensamentos que a todo custo me invadem, fiz aquilo que podia e era devido com total tranquilidade, ouvi o tilintar do liquido enchendo o copo, senti a textura que acompanhava cada gosto, sem me dar conta estava naquele sentar e estar sentada apreciando o viver e estar viva.