Ficha técnica:
Jenis
Crossbow, 2020
Fotografia digital

Monções de Balança

Por Jenis

             Viver carregada em círculos embriagados, descontínuos, é tudo que sei. Bom, ao menos conheço, pois saber é… saber demais. A merda estava feita quando me resolveram parir.

             Entre paredes, entre pernas, mãos, cobertores, roupas e tudo mais que há possível de ser: me vejo entre os círculos. Sabe-se lá quais são os tamanhos certos, concretos ou abstratos, mas todo esse sofismo me dá dor de cabeça.

             Fui amaldiçoada na coroação. Assim que rasguei o primeiro círculo caí no infinito e alguém certamente rio – já pode ver meus não-fins. Depois, tudo foi um: candelabros machucados pelo vai e vem das esferas giratórias, fundindo-se no calor primordial para se formar de novo.

             Pode parecer que tudo é igualitário, eternas mandalas criadas pela vida, mas aqui mora o óbvio cego: As partes de fim nunca se acabam; salvo as -sem começos. Fico contente pelos círculos que me fazem e me rodeiam. Suas sagacidades impulsionam o desejo de dançar um rodopio mais atrevido e um tanto ligeiro. Libertam nossas vidas impermanentes do medo de cair, para enfim nos fazer surpreender com as serendipidades e nos entregar a certeza de que, depois do primeiro grande círculo, não há recomeços para fantasiar.