Pintura de Gustave Coubert

Bilhetinho azul… – Priscila Monteiro Santos (priscmonteiro.wordpress.com)

                                             Palavras, vão de leve com o vento soprando aos ouvidos os pensamentos, os proibidos, os desinibidos, aqueles que nem damos conta que contam tanto para nós.

                                            Acho que esse é você, acho mesmo que você seja assim, um cultivador, um jardineiro em extinção, do tipo que rega o jardim. E um belo dia abre a porta da frente, simplesmente porque cansou de olhar o jardim crescer da sua janela, gruda um bilhete na porta do vizinho sem nem se preocupar se o vento pode levá-lo, só para não se sentir abandonando tudo, com aquele bilhetinho acha que esta tudo bem, que alguém se lembrará de regar suas flores, as que você cultivou e viu crescer por tanto tempo, mas que depois dessa manhã não verão mais as suas mãos.

                                          Sai andando pela calçada como se fosse um dia qualquer, desses em que se tem vontade de fumar um cigarro, ou comprar um jornal ver o que tem acontecido no mundo, só que nesse dia qualquer decide que o cigarro não é mais tão importante assim e que o jornal não vai te dar um bom parecer do que há. Vê-se diante da estação de trem e percebe que não existe um destino, mas que todos parecem ótimos, vai até o guichê, compra uma passagem, sim? Diz o som do outro lado do vidro, mas você esta muito distraído com seus planos, então aceita qualquer pedaço de papel recebe e nem se quer olha para saber aonde vai levá-lo aquele papel. Segue a indicação de todos que pegam nas mãos seu pequeno pedaço de papel, que agora é também seu destino. Esta longe, em um lugar muito estranho, e estranhamente familiar para se importar com qualquer coisa que não seja pensar e nesse estranhamento intimo.

                                         Percebe que ninguém ali fala a sua língua, mas que isso não o incomoda, porque talvez ninguém nunca tenha falado verdadeiramente, e no meio da estação junto às multidões que seguem aparentemente sabendo qual é o seu destino, dá-se conta de que não esta tão perdido assim, que como eles vai embarcar, tem hora prevista de chegada e hora prevista para partir, mudar de cidade, mudar de paisagens, mudar simplesmente, era aquilo que talvez estivesse buscando ali, uma mudança nítida, a mudança explicita.

                                          A vida tem mudado nos últimos dias, nos últimos meses, nos últimos anos, mas parece que tudo continua igual, o quanto já não é mais o mesmo, teme acordar e um dia não ser esquecido, teme mais que a morte ser lembrado para sempre, imutável, congelado como o homem que foi ontem. Espairece pensando, que talvez, se nunca mais o virem regar seu jardim, se puder sumir, mudar tudo, então possa reconstruir a imagem que hoje tem de si, mas não parece ser tão simples, porque algo em você também lembrará sempre do homem que um dia houve ai, então esse homem que se tornou, quando é que encontrará morada dentro de ti? Quando é que dará chances dele crescer e existir, quando poderá encontrar o seu real espaço?

                                           Ainda não sabe o que fazer para conciliar o jardineiro com o aventureiro apenas entende que ambos existem em ti, e que é preciso encontrar uma maneira de conviverem. O desbravador resolve assumir os passos do jardineiro, mas aonde esses passos o levarão?