Desenho de Cláudia A. Terehoff Merino

Contra a corrente

           Ainda adolescente e muito medrosa, inventou de fazer uma tatuagem.    Uma de carpa (carpa vermelha), bem na bochecha: “Para trazer coragem, resistência e perseverança e você aprender a nadar contra a corrente”, como avisou que aconteceria uma amiga dada a misticismos, simbologias e interpretações da natureza.

            Uma vez feita a tatuagem, a jovem não se cansava de admirar o novo rosto: como era bela essa obra-carpa, nascida de um desejo seu!

Com o tempo, foi realmente adquirindo mais força e coragem em tudo o que fazia. Se lhe convidavam para ir a uma danceteria, topava sem medo de o lugar sofrer com um incêndio como sentis antes; se desejava fazer algum curso onde havia poucas vagas, se inscrevia e lutava para passar na prova, deixando de lado o receio de não conseguir realizar o sonho. Tornou-se constante, ficou mais forte… já não tinha mais vergonha das orelhas pontudas e nem jogava nelas a culpa de algo  quando dava errado. Em suma: era feliz! E, por isso, toda vez que a vida inventava de derrubá-la, lá estava ela, pronta para se levantar e agir outra vez. Não mais a jovem tímida de antes: apenas a bela mulher-peixe de agora.

            Até que um dia a pequena carpa olhou seu mundo-face tão pequeno e perguntou-se: “Por que é que eu ainda fico aqui, parada, se a minha dona já é capaz de andar com as próprias pernas?”

            Tentou fugir.

               — Dona carpa, me desculpe — disse a mulher, vendo como o peixe se debatia em suas bochechas rosadas, tentando nadar contra a corrente que ali o prendia. — , mas se você for embora do meu rosto como é que  fica a minha identidade?

            — Você já não precisa mais de mim. Sou só imagem! Você é gente.

              Mas a mulher batia o pé no chão: precisava sim da tatuagem, e muito! Sem aquela figura, para onde iria a sua perseverança? E as realizações? Já não era mais capaz de viver sem a onda de resistência que a carpa lhe trazia ou de existir sem atravessar grandes distâncias, aceitar empregos novos e desbravar trilhas cheias de mato espesso.

           — Mas você pode fazer isso tudo sem mim….

           — De jeito nenhum!

          Também gostava muito quando os outros a chamavam de Pequena Sereia e, além disso…

            — … dona carpa, se não fosse porque eu quis e paguei, você nunca nem teria nascido! Então, não tem o direito de me deixar quando bem entender.

           — Mas eu quero viver a minha vida também.

           — Você é minha propriedade, goste ou não.

           E as duas discutiam, horas a fio, sem nunca chegar a qualquer solução que pudesse deixar ambas felizes.

           Com o tempo, a insistência e obsessão por não perder o que havia criado e conquistado foram tantas, que a mulher já não tinha mais paz: passava os dias e noites vigilante, sempre a espera do pior,  preocupada em perder-se de si mesma e, o mais estranho de tudo, todo o tempo de olhos bem abertos para não deixar de ser Ariel.

         Voltou a ter medo.

         Tornou-se inconstante.

         De bela mulher, passou a triste senhora.

          A carpa, por sua vez, ainda que se sentisse a cada dia mais mulher e menos peixe, perseverava em suas tentativas de fuga, jamais se acostumando a essa vida imposta por outros.

        E assim continua ela até hoje, desejando ultrapassar as margens da sua vidinha-bochecha: ter o descanso de águas quentes, doces e calmas onde possa nadar a seu modo, sem a obrigação inescapável de estar sempre em função de vida alheia. Agora, onde quer que estejam as duas (mulher-peixe ou peixe-mulher?), cada uma em sua prisão, a pequena imagem continua a debater-se, sempre nadando contra a maré, tentando escapar dessa sua rede-corrente sem águas…

      Conseguirão libertar-se algum dia?