Ps: I love you – Priscila Monteiro Santos (priscmonteiro.wordpress.com)

                     Escrevi uma carta de amor, com todo o carinho que havia em mim, no verso fiz um desenho, coloquei dentro de uma garrafa, e tampei com uma rolha. Fui até a beirada do píer e segurei-a com força, mas no meio do caminho, entre meus braços, o punho, e o mar, lembrei-me dos ativistas, de toda essa onda de sustentabilidade, pensei na poluição a solta por todas as cidades, tive receio de matar um peixe, ou por engano engasgar um boto.

                     É amor, sei que você, de todas as pessoas seria quem leria as minhas palavras, mas sabe como é a ecologia anda em voga pela humanidade, o amor (por outro lado) tanto faz, tanto fez. Se fossem apenas garrafas de mensagens, que os homens jogassem pelos mares, tenho certeza de que estaria tudo bem, mas tem essa onda de petróleo, podia pegar no vidro transparente e contaminar o que era só da gente.

                     Olhei para o oceano, lá no fim encontrei o céu, tudo num escuro único e lá vi-nos juntos, lá vi Deus e pedi num sussurro. Faz, por favor, com que ele encontre a minha mensagem. Fui embora do píer, passei por um bar, sentei um instante, que virou algumas horas, no fim disse ao dono, guarda para mim, num lugar que dê para enxergar, o dono um dia vem buscar. Deixei a gorjeta no balcão, sai andando a cantarolar.

                     Amor, a sua mensagem está lá, numa prateleira daquele bar, até ia enviá-la pelo mar, convicta de que só você poderia encontrar, mas meu senso ambiental não me deixou mandar. Qualquer dia passa por lá.

                    Outro dia me ligou um homem, disse que queria me encontrar, perguntei qual era o seu nome, e ele disse que não podia falar. Desliguei, dizendo a ele que se era assim, não podia encontrá-lo.

                   Voltei àquela praia recentemente, passei por aquele píer, e resolvi parar. O dono não lembrava meu rosto, mas lembrou da garrafa. Abriu à registradora, e tirou do fundo um envelope, que parecia fazer anos que estava lá. Era você, sem nome, explicando que até tentou me encontrar.

                    Perguntei quem tinha deixado, o dono só conseguiu lembrar… um dia, um rapaz sentou ai, bebeu só um copo de água, mas demorou-se por aqui, ficou um bom tempo no píer e na volta me perguntou o que era a garrafa? Disse-lhe que uma maluca, pediu para guardar, que um dia o dono viria buscar, mas não deixou nome, nem disse quando, achei cômico e desse dia em diante a coloquei ali. Ele sem pestanejar falou, é minha pode me entregar. Outros já haviam perguntado o que era aquela garrafa, e o que ela fazia lá. Mas nenhum tinha afirmado que ele era quem tinha vindo buscar, uma vez quase dei a um homem que ficou muito intrigado com a história, mas vi que era só curiosidade e inventei que o dono não era dessa cidade, e que por isso não podia entregar. Mas esse rapaz foi tão convicto, que não tive como negar. No dia seguinte, ele voltou amuado, me entregou a carta e pulou no mar.

                     Quando ele terminou, meu rosto já havia sido banhado de mar, e sem conseguir ficar firme, disse ao homem num tom suplicante, tem certeza de que o senhor não sabe um nome para me falar? O homem olhou para o fim do píer, o mesmo que eu já tinha olhado, e ele não precisou dizer nada, sabia no que ele estava a pensar.

                Voltei mais uma vez aquele píer, tentei baixinho repetir, Deus lembra de mim? Já estive aqui… a questão meu amor, é que se tivesse jogado a garrafa no mar, ela tinha todo o oceano para atravessar e te encontrar, como a deixei ali na prateleira, foi muito mais rápido, e estava esperando-o daqui a uns bons anos. Depois que a mensagem tivesse percorrido todo o mar e a minha face estivesse lavada pela água doce de um rio, e assim eu fosse para você, água doce do rio.

                Mas nós dois estamos parados em um píer, prontos para nos jogar, e nos encharcar de água salgada, sal gruda sabe, e isso às vezes me deixa enjoada, então finge que não encontrou ainda a garrafa e guarda, e eu faço de conta que você nunca ligou, nem dissemos nada.

               Tem paciência, viver não é uma ciência, dessa vez joguei as chaves no mar, estou aqui sentada a esperar. Quando Deus ouve uma prece, milagres realmente acontecem, ainda vamos nos encontrar.