Desenho de Cláudia A. Terehoff Merino

Servirei para algo no fim das contas?

Olhos cintilantes, sorriso delicado, capa vermelha e justa a esconder os seus bracinhos aparentemente inexistentes: a sétima e última das bonecas russas acaba de florescer!

 Vinda após cinco outros nascimentos, a pequena Matrioshka de cabelos ondulados e bochechas coradas observa o mundo ao seu redor.

Como é grande…

Como é lindo…

Como foi bom ter vindo parar justo aqui!

Ao seu lado há mais seis bonecas iguaizinhas a ela, todas enfileiradas e sérias, muito sérias… “Por que estarão todas assim, com uma cara tão brava e os olhos fechados?”, pensa a pequenina. A seguir, resolve perguntar a todas as outras, uma a uma, o porquê de estarem desse jeito,  cerradas para um mundo tão vasto e bonito.

 “Ora, menininha! Porque já fiz o que vim ao mundo para fazer.”

 “Dei à luz outra igual e acabou: é isso!”

 “A gente só nasce pra dar origem a outras como nós….”

“É o ápice da felicidade, filhinha…”

“E depois que você cumpre o seu destino, vai ficar de olhos abertos pra quê?”                                    

“Além disso, fiquei cansada depois do parto e resolvi dormir. Você não ficou exausta depois que a sua boneca saiu de dentro de você, pequenina? Depois do parto? Não ficou? Hein? Me diz…”

Parto, mas que parto?

Como responder a isso, se ela é a última das sete bonecas e não consegue abrir seu ventre e dar origem a outra igual?

Mas não podia dizer nada disso às outras bonecas ou ririam dela por ser diferente…

            Assim, a pequena e última Matrioshka ouve tudo com atenção e em seguida se questiona sobre a sua tarefa na Terra. Sendo ela a menor de todas e impossibilitada de cumprir essa tal de missão de que tanto falam as outras seis, a pequena reflete: “Se eu não posso me abrir como as outras, talvez não sirva para nada mesmo…”

            Seu sorriso se esvai.           

            Com uma grande sensação de inutilidade, a bonequinha resolve sair mundo afora em busca de algo ou alguém que possa ajudá-la. “Talvez alguém nesse mundo possa me partir ao meio… Quem sabe eu tenha outra igual dentro de mim e só não saiba? O que eu não posso é ficar aqui sem cumprir a minha missão de Matrioshka! Preciso ser igual a todas as outras, ou serei sempre infeliz!”

            Ela caminha, agora cambaleante. Esquecida de que o mundo um dia foi lindo! De que ele é grande… E do quanto foi bom ter vindo parar justo aqui.

Durante a sua longa caminhada, conversa com um, sorri para outro… Tem vários encontros, mas nenhum deles capaz de satisfazê-la.

“Me desculpe, bonequinha… Não posso parti-la ao meio ou vou matá-la!”

“Bonequinha, me perdoe… Eu queria poder ajudar, mas não tenho um serrote aqui…”

“Querida, por que você não deixa essa ideia de ser cortada pra lá? Você está inteira, é forte, tem um sorriso lindo… Procure outra missão para si!”

Mas a bonequinha não desiste:

“Um dia eu ainda vou cumprir a minha missão de Matrioshka.”

E segue adiante, sempre adiante…

Carregando consigo uma faixa onde se lê a palavra “coragem” em russo (faixa esta que ela sempre teve, desde o nascimento, mas só não sabe que tem porque, obcecada com essa história de missão, nunca parou para se olhar em um espelho), a boneca anda, de fato, embora não perceba, encorajando quem encontra à sua frente. Incentiva um pequeno e amedrontado pássaro a voar e com isso o salva de estar sempre preso a um mundo terreno que não é o seu; aconselha uma tartaruga a não dar um passo maior que as próprias patas e graças a isso a própria tartaruga passa a ter uma vida num ritmo muito mais compatível com o que veio ao mundo para ter; alegra o dia de uma formiga trabalhadora ao cantar uma tradicional canção russa que ela mesma não sabe como aprendeu ou de onde veio, e por essa razão a formiguinha trabalha mais feliz e nem  vê a hora passar!

“Todo mundo realiza a própria missão e é feliz. Exceto eu…”. pensa ela ao olhar como a formiga dança.

E assim, não importando o quanto faça pelos outros, a sétima Matrioshka continua a se questionar dia e noite: “Quando é que eu vou realizar a minha tarefa aqui na Terra? Serei sempre uma boneca inútil?”  

Até que uma manhã de sol a menina Júlia a encontra no chão e a toma para si.

— Mãe! Mãe! Olha só o que eu achei no jardim!

— Que linda, meu amor!

— Ouvi dizer que essas bonecas russas dão sorte, mãe. Você escreve um desejo num papel, depois abre a boneca, coloca o desejo dentro dela e… ué…! Essa daqui não abre, mãe… Será que está com defeito? Será que o papai consegue arrumar?!

Nesse instante a boneca pensa: “Ah, graças aos céus! Aposto como esse pai dela vai me cortar para consertar o meu defeito! Agora sim vou ser feliz!”

Para a sua surpresa, no entanto, a mãe da menina é incisiva:

— De jeito nenhum, filha! Ela é perfeita exatamente desse jeitinho! Deve ser a última, a menorzinha de um conjunto de sete. Você não achou as outras? Quer dizer, veio só essa? Bom, não tem problema, filha. A menor de todas, na minha opinião, é sempre a mais bonita porque justamente não tem um corte no meio como as outras da coleção. Coloca lá na prateleira e você vai ver: ela vai decorar e trazer sorte do mesmo jeito ou até mais do que a maior!

A menina faz o que a mãe diz e sorri ao observar como a estante ganhou vida:

— Verdade, mãe. Ela é muito linda! Com certeza vai trazer muita sorte pra gente!

Desde aquele dia, a pequena Matrioshka fica ali, iluminando a casa toda com seu sorriso de flor engessado. Sempre arrancando de visitantes e amigos exclamações como “Que boneca linda!” ou “Posso tocar, pra ter sorte também?”. Pois o fato é que, como não se cansam de dizer por ai “Ela dá sorte mesmo!” Afinal, desde o seu aparecimento, a família teve um progresso muito inesperado em todos os campos, inclusive o financeiro.

Mas se vocês acham que terminarei essa história falando “E assim a pequena boneca finalmente entendeu que sua missão podia ser diferente da de suas genitoras e foi muito feliz!”, estão enganados. Apesar das várias mudanças que gerou no mundo e da sorte que acabou levando àquela casa, até hoje a minúscula Matrioshka olha de dentro do vidro da sua estante fechada e decorada e se pergunta o porquê de o pai da menina não tê-la partido ao meio quando a oportunidade surgiu. Estaria tão feliz agora! Além disso, sem recordar nenhum de seus feitos ao longo da vida, a sétima boneca não pensa senão: “Será que um dia vou poder ser feliz como as outras seis? Servirei para algo no fim das contas?”.