A história da garrafa – Por Priscila Monteiro Santos

Paul Cezanne – The Bottle Of Peppermit

A história da garrafa – Priscila Monteiro Santos (priscmonteiro.wordpress.com)

                          Pare de tentar, comece a agir, mas não usaram essa pequena sentença para dizer a mesma coisa, talvez porque soubessem demais de mim, e soubessem que assim, com curtas sentenças não entendo quase nada. Não devo ser boa entendedora, meia palavra nunca bastou, sempre sofri por gostar de longas orações.

                              O caso é que andei tentando viver e conversando fiz uso do verbo, nem lembro mais o que é que estava a tentar, ou vendo por esse ângulo, o que é que estava me tentando. Eis que começa a conversa:

                              Estive numa aula, para aprender a respirar, equilibrar o ar que entra e sai, para andar mais equilibrada pela vida. Agora colocando assim, parece estranho, mas na hora, no meio da minha comoção, pareceu tão obvio que houvesse tal aula e que se fizesse tal coisa; enquanto olhava de lado, quase sem querer olhar para aqueles olhos e aqueles lábios, a mostrar a verdade a respeito de mim, não as que sei e canso de admitir, mas as que tento desesperadamente fugir, não queria olhá-la. Mas continuava a ouvir.

                                 A história era: no meio da aula, para aprender a respirar, a professora pediu uma voluntária. Uma jovem se levantara, e prontamente assumira o papel em frente aos demais, a professora instruirá, – “tente” pegar essa garrafa. Havia no chão uma garrafa, e dizia então a frase à menina “tente pegar essa garrafa”. A menina então se agachava, ia em direção à garrafa, seu corpo dobrava-se, porque a garrafa estava no chão, às mãos se esticavam, e quando iam alcançar a garrafa, a professora bruscamente a retirava, olhava para a moça e dizia: – falei para você “tentar” pegar a garrafa.

                                    A moça, encabulada, balançava a cabeça em sinal de que compreendera, a cena se repetia, quando ia encostar a professora removia o objeto, e assim se deu durante meia hora, no fim a garota suava, estava irritada com as contorções as quais era obrigada a executar durante o movimento de abaixar-se, estender as mãos e não alcançar. A frustração instalara-se nitidamente em sua face, por mais que estivesse desempenhando corretamente o que lhe havia sido ordenado, de certa forma é frustrante, quando podemos fazer, mas não o fazemos, sabe-se lá porque, nesse caso, porque alguém lhe dizia para não fazê-lo.

                                    E assim não fazia a moça. Acabou-se a história, não fiquei sabendo mais nada, mas soube tudo que não queria, estava tentando e tentar não era pegar, tentar não era conseguir, tentar não era. E tentar não me levaria a lugar nenhum senão a minha própria frustração de poder e não fazer, e era isso que estava fazendo ainda, estava tentando pegar a garrafa, me desgastando num esforço infundado de encolher e abaixar, esticar e não chegar.

                                 Mas quem estava dizendo que não podia, quem além de mim era a professora a dizer, tente, tente? Era eu quem dizia, vou tentar e precisava mudar de verbo, precisava construir uma nova oração, vou mudar, vou pegar, vou andar, vou chegar, vou agir, vou viver, vou viver. Respirar… preciso entrar numa aula para aprender a respirar.

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