Rene Magritte – The False Mirror

Ôh! olhar deslumbrado – Priscila Monteiro Santos (priscmonteiro.wordpress.com)                      

                          O olhar deslumbrado, esse trunfo que é dado durante a infância do qual não percebemos o valor. O olhar virgem, aquele que dizem os outros, só pode ser dado quando vemos algo pela primeira vez. Esse fascínio com a vida, depois de adentrar no mundo adulto é privilégio de poucos, guarda-se aos loucos ou aos turistas.

                             A mala nas mãos concede o direito ao deslumbre, não se assustam quando alguém maravilha-se ante algo, que aparentemente lhe é completamente novo; há a imagem do viajante, ele recebe do outro o mesmo direito da criança, ver pela primeira vez. Caso soubessem que aquele passageiro, passou ali a vida inteira, incomodar-se-iam com o olhar direto aos olhos e não em nenhuma outra parte do conjunto? Incomodaria o quase arregalar das pálpebras para não deixar escapar nada do que o cerca? As pessoas se incomodam com esse olhar encantado.

                             Nesse incômodo encontro a resposta, a uma pergunta que por vezes questionei, por que hoje há tantas máquinas? Expostas e a postos para registrar tudo, a máquina fotográfica, mais leve que malas, mais simples que idades, pode ser transportada por qualquer um, em quase qualquer lugar. E basta quando nos admiramos com o cotidiano, sacar nossas armaduras diante o olhar condenador, para que por alguns instantes possamos desfrutar de nosso particular deslumbre.

                             Os mais tímidos são capazes até de guardar o momento para depois, criam na imaginação o instante que gostariam de ter apreciado melhor, fecham os olhos por um milésimo de segundo, para certificar-se de que aquela imagem ficou ali. Cotidiana e nova, transbordante do que vivemos e não captamos, o olhar deslumbrado assusta, agride, mostra ao outro explicitamente que não é preciso tanto para ser feliz, apenas deixar tocar dia a dia por um novo espanto, ao compreender minúcias da nossa existência, soltas pelas ruas, calçadas, casas, fotografias…

                             O olhar deslumbrado, um dia direi a meus filhos, esse olhar, esse que você acabou de dar a luz do dia. Seu primeiro olhar, dê todos os dias, cada dia é seu primeiro dia, naquele dia. Cada olhar é seu primeiro olhar, sendo você como está. Filho meu, o novo nasce o tempo todo, basta que você se afaste do olhar dos outros, para enxergar pela primeira vez com os seus olhos.

                             Rotina foi uma piada feita por um homem que perdeu o gosto pela vida. Nem um cego, teria tão pouca sensibilidade com a sua própria existência. Esse seu olhar meu filho, seu primeiro olhar, é tudo que você precisa, dê-o todos os dias, o olhar deslumbrado, não é parte apenas dos nossos olhos, está nos ouvidos, no nosso tato, nos passos, é um presente que a alma entrega quando surge a vida, um estado de espírito. Encantar-se é isso estado latente da alma em mim.