Você e tudo mais. Priscila Monteiro Santos (priscmonteiro.wordpress.com)

                  Pensou em não dizer nada daquilo, mas se não dissesse, que sentido haveria em tudo que já havia dito em sua vida. Nenhum era a resposta que repercutia dentro dela, se não puder dizer, com um pouco de fantasia, e um tanto de sinceridade, que sentido há de ter?

– O que mais tem ai?

– Muito mais.

– Muito o quê?

– Ia dizer a minha alma, mas não é, é só um capitulo na minha vida. Um longo capitulo chamado…

                 Após se olharem e ficarem em silencio, por uma década, talvez um século, o tempo era realmente algo que não fazia sentido quando estavam juntos.

– Você acredita se disser que nunca deixei de amá-lo?

– Acredito, pode falar.

                 Riem juntos, e então ela olha os olhos azuis, após todos esses anos em que não se encontraram, aquele olhar era o mesmo que ela vira quando o conheceu. Um olhar profundo, doce e puro, olhos que sabiam o que era conter toda a dor do mundo.

Ela diz:

– Amo você.

                 Então ele a vê. Ela ainda se parece muito com aquela menina que ele conheceu seu olhar ainda tem uma candura inconfundível, mas algo está mudado, não há mais neles todo aquele drama que continham na primeira vez em que a avistara. Aquela tragédia grega na qual ele sem querer adentrou, por ter olhado tanto tempo aqueles olhinhos que pareciam tão inocentes e frágeis, mas que na verdade eram sedentos por vida, estavam imersos numa profunda agonia.

                 Agora já não mais, ela pronunciava aquelas duas palavras, e era apenas o que queriam dizer. Não era a dor de um amor perdido, não era todo um passado de sonhos destruídos, e principalmente não era a ilusão de um futuro perfeito. Eram apenas duas palavras tentando expressar algum sentido, para o encontro tão (provável – ato falho) improvável (provável, mas impossível), de duas almas tão similares. Era leve, depois de todos aqueles anos sem se verem, ela tinha mudado, ela era mais leve.

                 Enquanto ele pensava em tudo que talvez tivesse acontecido a ela, em como aquilo a afetara, em tudo que a vida já lhe tinha feito, enquanto ele sucumbia aos desejos de compreendê-la, enquanto tentava em vão alcançá-la, sem perceber que ela se entregara a ele desde o primeiro dia em que se viram.

                 Ela percorria seu corpo milímetro por milímetro, cada fio de cabelo fora do lugar, os sapatos notáveis, que também pareciam não estar bem certos ali. Lembrou dele bronzeado, e de ter pensado “eis ai a cor do pecado” e ele parecia ter ficado cada dia mais belo. Os anos lhe faziam bem, apesar de tudo que viveu, os anos pareciam tê-lo feito novo. E ela pensava em si mesma depois de tantos anos, como ainda podia amá-lo? Que amor teria sido aquele, que mal conteve olhares.

                 Mas ela lembrava-se rapidamente de quantos homens amara desde então, e quantos houve antes mesmo que ele estivesse presente na sua vida e por fim concluía, ele era raro. Todos esses homens, e na sua maioria talvez tivessem sido homens de um único olhar, e por quem ela ainda nutria uma espécie de afeto, que despertava nela certo instinto selvagem e ao mesmo tempo maternal.

                 Ele não havia conhecido muitos homens capazes de despertar o melhor e o pior de si, mas ela sabia-se possuidora de ambos os polos, e pensava, que qualquer deslize, se ele tivesse se levantado em direção a ela, se os seus gestos fossem mais abrangentes, se eles se olhassem fixos por aquele milésimo de segundo a mais… Porque ele tinha esse poder sobre ela, enlouquecia toda superfície do seu corpo, mas mais que isso, parecia fazer parte da sua mente; ela o sentia dentro dela, sem que jamais a tivesse tocado.

                 Ela fora dele durante tanto tempo, que agora outra vez frente a ele, perguntava-se como havia conseguido desgrudar-se? Separar-se tão sem dor, daquele fio invisível que o unia a ela? Como ela tinha sido capaz de continuar sem ele e chegar até mesmo em alguns momentos a esquecê-lo?

                 Ele estava sentado ali, passava a mão esquerda sobre a testa, num movimento lento, com as pontas dos dedos, acariciava a própria pele, enquanto deixava que os pensamentos seguissem seu próprio rumo, sem procurá-los ou puni-los, livres.

                 Ela quase enxergava suas ideias, cavalgando em desertos sem fim, em pistas abertas de corrida, quando entrava no mar e se transformava em um com ele. Ele era um com o mar, com o céu, com a terra, com tudo que o cercava; essa energia emanava dele, era algo mais que vida, mais que paixão. Ela jamais entendeu, do que se tratava aquilo, mas estava convicta de que era exatamente o que a fascinara, olhos estampados de uma dúvida completa de certezas, ou talvez fosse à certeza de só haverem dúvidas.

– O que mais tem ai?

– Muito mais.

– Muito o quê?

– Ia dizer a minha alma, mas não é, é só um capitulo na minha vida. Um longo capitulo chamado…