Clichê – Por Ian Plat

Clichê

Era uma vez
um reino burguês
um fazendão interminável
com vista pro mar
e com um quartel do lado
onde a distribuição de renda
nunca havia sido um problema
uns tinham
outros não
simples assim
como Deus queria
tinha mata
tinha rio
tinha heliporto
quadra de tênis
tinha o escambau
tinha uma família que era dona
de redes de tevê, rádio e jornal
também tinha outros tantos negócios
(pois era preciso diversificar)
assim, também era dona da vida de outras tantas famílias de agregados
(modo de falar, eles ERAM QUASE DA FAMÍLIA, entende?)
também tinha uma vilinha de catadores
outra de pescadores
e também aquela onde moravam os “colaboradores” do fazendão
e, claro, os “avulsos”
no pé do morro tinha uma escolinha
uma capelinha
um culto de garagem com um autoproclamado pastor
tinha o comerciante
e mais lá pra trás a zona
o meretrício
as mulheres de vida fácil, né?
a mais antiga profissão
se é que o doutor me entende…
e tem a cadeia junto à delegacia
e um VAAAAAASTO cemitério
que ninguém sabia mais o limite
nos fins de semana,
o delegado,
o policial,
o fazendeiro,
os capangas,
o prefeito,
o jornalista
o vereador da situação (e às vezes também o da oposição),
o coronel
o padre
e o pastor
se encontravam pra jogar carta no botequim da cidade
o professor só espiava
de canto
enquanto tomava sua cachacinha e lia o jornal
o homem do povo
junto ao balcão
contava as moedas pra comprar pão
enquanto isso
o universo dançava lá fora…

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