Cantigas de ninar
por Priscila Monteiro Santos (priscmonteiro.wordpress.com) 

                              Meu Deus eu queria explicar, mas ainda não fui capaz de entender, ver aquele pequenino ser, ali comigo, só eu e ele, e ele dependente totalmente de mim, o que foi isso? Eu tive medo, tanto medo, medo de errar do começo ao fim. Estávamos ali, apenas nós, e ele chorou para mim, ele chorou só pra mim, porque ele sabia que eu iria até ele. E eu fui, e o olhei com olhar talvez mais choroso que o dele, porque ele parou, e me encarou por um longo espaço, e quando dei por mim, estava ali ao ladinho dele, conversando como se ele fosse um pequeno adulto num corpinho pequeno, eu dizia a ele e ele me respondia, ele parava olhava nos meus olhos enquanto eu falava e tenho certeza que ele me compreendeu.

                                   Ele compreendia tudo que estava dizendo a ele, mas eu não era capaz de entender, nem um sequer resmungo daquele pequeno ser. Até que nossas mãos se tocaram, e as mãozinhas dele se agarraram em mim, como se eu fosse muito importante para ele, como se ele realmente precisasse de mim. E enfim foi que deixei-me ser importante, e deixei que alguém precisasse de verdade de mim, sabendo que eu muito mais que ele, precisava dele ali, ele foi o sentido de todo aquele momento para mim, aqueles olhinhos fixos num ponto não identificado do horizonte, agarrou a minha mão com força, com as duas mãozinhas como a me dizer, agora você não vai mais embora, agora você vai ficar aqui comigo.                    

                                  E eu fiquei ali, hipnotizada por aquele pequeno ser que tenho certeza me compreendeu, compreendeu tão bem, que num instante em que as ruguinhas na testa dele começaram a aparecer eu disse baixinho em seu ouvido, por favor não chora, porque eu não sei o que fazer com você se você chorar e se você começar a chorar outra vez eu vou chorar junto, e daí seremos dois chorando só isso, vamos combinar de ficar quietinhos aqui, eu canto pra você, e comecei a cantar, é engraçado, sei dezenas de milhares de músicas de cabeça, mas ali, olhando aquele pequeno ser, nada vinha, não conseguia uma melodia sequer, até que lembrei do Pai Nosso cantado, e foi assim, a primeira vez que aquele menino de 40 dias me ouviu cantar o Pai Nosso e os verdes prados, talvez precisasse cantar para mim mesma, para que eu me acalmasse, porque eu estava simplesmente apavorada, ele é tão pequenininho, ele é tão pequeninho, ele é tão lindinho, e ele me olha com aqueles olhos de adultos de quem está entendendo tudo, e simplesmente responde naquela linguagem que eu não decifro.

– você está com fome?

– Naumd eims hão doi

– você está com frio?

– Anhaum nahuooim mionu

– você quer levantar?

– Ads siiiimoooo ommmmmttt nhanhanha

– você quer dormir? O que é que você precisa bebe? Bebe me ajude aqui, porque eu não sei o que fazer. E então como se ele pudesse prever a chegada da minha exaustão, se encostou no meu ombro, fechou os olhinhos, agarrou minha mão, com aquelas mãozinhas tão pequenas, tão pequenas, que só eram capazes de envolver um dedo das minhas mãos, assim, então o ninei, e agora sei o que é ninar, e não dá pra explicar esse balanço, porque é diferente de tudo: é espontâneo, nunca tinha ninado um bebe, mas sabia exatamente o que fazer, começo a desconfiar que tem coisas que a gente nasce sabendo. Como é preciso estar perto para se sentir seguro, e como é preciso agarrar com força aquilo de que a gente precisa, e como é bonito olhar nos olhos enquanto o outro fala… e como ninar bebes… a gente nasce sabendo fazer.

ao Luquinhas com carinho, obrigada por me doar um pouquinho do sentido da vida.