Azul aviador – Por Priscila Monteiro Santos

Azul aviador
por Priscila Monteiro Santos (priscmonteiro.wordpress.com)

Brigas de família, e a menina desce a escada segurando a barra do vestido que é muito comprido e florido enquanto as chinelas fazem barulho ao tocar cada degrau, como se fossem fortes marteladas no cair da noite.

Ela passa a porta e segura a maçaneta, derruba algo que estava do outro lado e o leve som do objeto a estalar no azulejo ecoa pelo silencio da noite escura no quarto vazio. De repente ela sente um toque invisível de compreensão e vê seus gestos em câmera lenta serem observados com cuidado e atenção. O homem que mora no seu coração às vezes faz isso, habita cada movimento como se estivesse ali dividindo aqueles momentos.

Eu o amei, de um jeito que não sabia que existia, dei de mim o que não tinha e inventei mais, apenas pelo prazer de poder dar, e então eu soube pela primeira vez, que não apenas eu amei, como também fui amada. Depois de você meu amigo, houve algo estranhamente bom comigo, parece que recuperei meu espirito, não tenho é claro a leveza e a audácia que existia quando o perdi, mas parece certo dizer, que estou completa em mim aqui, que desta vez o amei, mas não me perdi, porque talvez o amor de verdade faça isso por nós, tire-nos pedaços e deixe-nos outros fragmentos, que no final nos transformam em quem somos, inteiros.

Sempre gostei de falar dos homens que eu amei, mas seria justo que pelo menos uma vez eu cita-se os homens que também me amaram. Porque apesar de nem todos terem sido correspondidos, eles também existiram, assim como nem todos os homens que amei me amaram, os que me amaram nem sempre foram desejados de igual forma. Lembro agora da sensação que o desejo do outro em mim causava, e penso será que eu também provoquei isso quando os amei sem que eles me correspondessem.

No começo eu apostava na amizade, sempre pensei que quando duas pessoas se amam, mas não de igual sentimento, algo ainda pode ser mantido. Desisti dessa ideia na primeira vez que vi a dor que eu mesma já sentira estampada no olhar de alguém, mas sem querer entender que era eu quem causava. Desisti, e provável que ainda o faça outras vezes, da companhia de muitas pessoas que me eram profundamente queridas, nalgumas vezes por pena, noutras por proteção. O que eu causava a alguns, alguns também causavam a mim.

Meu ultimo grande feito, foi um beijo, uma paixão de uma noite apenas, um desses homens que passam pelas nossas vidas, mas deixam muito mais que uma lembrança ou saliva, ele me devolveu a vontade de estar viva e querer. Talvez porque viver e querer, hoje entendo assim, são duas situações completamente intrínsecas, quem vive quer, e quem quer está vivo.

Tento agora uma nova charada, ou apenas descoberta, por que para sermos o que somos, tantas vezes passamos a ser tão diferentes e artificiais? A cor do meu cabelo, a cor das minhas unhas, até o sol auxilia na mudança da cor da minha pele, talvez tenha chegado ao limite da minha própria transparência, e por uma mistura de essências, tenha por fim transformado a minha aparência, mas será de verdade que mudar por fora é sinal de uma transformação ainda maior interna? Muita gente que conheço gosta de pensar assim; quanto a mim, apenas não sei, só sei que agora, as unhas azuis são assim, porque gosto de cores que se chamam aviador… Havia dor, o azul é o que há agora em mim.

ps: “Vinte segundos de coragem, por que não?”

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