Como a escrita pode ser terapia

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Postado no Itaú by Milena Buarque Lopes Bandeira

Além dos muitos diários, Bruna, quando criança, gostava de narrar histórias e fatos da vida de sua bisavó. “Minha primeira publicação foi uma antologia sobre família. Ela já foi biográfica e se tornou a melhor opção para mim, que não queria falar de mim mesma.” Tímida e retraída, em suas próprias palavras, a ideia de pesquisar e se debruçar sobre a vida do outro parecia fantástica para a sua vontade de escrever.

A paixão por ouvir histórias, somada à formação de conservatório e à experiência sólida e precoce com a música – ela já tocou piano e violino numa orquestra –, levou a escritora Bruna Ramos da Fonte, natural de Santo André, em São Paulo, a se especializar na produção de biografias e na narrativa de grandes nomes da cena musical brasileira. Em 2010, publicou O barquinho vai…: Roberto Menescal e suas histórias (Irmãos Vitale); em 2012, lançou Essa tal de Bossa Nova, com Menescal e apresentação assinada por Nelson Motta (Rocco/Prumo); e, em 2017, contou a vida e a obra de Sidney Magal: muito mais que um amante latino (Irmãos Vitale).

“Não sou uma boa musicista, não sou uma boa instrumentista, mas gosto muito de falar sobre música e gosto muito da teoria da música”, afirma. Recentemente, ela fez um curso de formação e regência orquestral: “Por puro prazer”.

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Para compreender as tantas “caixinhas” abertas no processo biográfico, Bruna decidiu em um dado momento cursar uma especialização em psicanálise clínica na Sociedade Brasileira de Psicanálise Integrativa (SBPI). “Percebi que na hora de biografar eu lidava com muitas questões delicadas, traumas e caixinhas do passado da vida da pessoa”, explica.

E, como a arte é uma consequência dos caminhos traçados, a escritora, após se dedicar a narrar tantas vidas outras, chegou à escrita direcionada para um processo muito íntimo e particular, como ponto de partida para um autoconhecimento, uma espécie de entendimento profundo, trazido à superfície pela via da terapia. A metodologia que desenvolveu sobretudo durante o contato clínico vem sendo trabalhada tanto com professores e alunos quanto com interessados pelo tema e pela possibilidade de escrever.

Neste ano, Bruna publica Escrita terapêutica: um caminho para a cura interior (Letramento), já lançado em e-book em 2020. Ao Itaú Cultural (IC), no Dia Nacional do Escritor, ela fala de seus caminhos, todos muito pautados, como é de esperar, pela leitura e pela escrita. Bruna também indica obras da literatura brasileira que fizeram parte de sua formação e dá dicas a quem deseja começar a escrever.

Bruna, como nasceu o Escrita terapêutica?

Costumo dizer que esse livro é algo que nasceu há muito tempo sem a intenção de ser um livro. Comecei a escrever diário muito cedo, muito criança. Acho que todas as vezes em que a gente sofre algum tipo de bullying, de preconceito dentro do ambiente escolar e na infância, é preciso de alguma maneira colocar isso para alguém, e a minha forma foi justamente fazendo diários. Com 7 ou 8 anos de idade, eu já escrevia diários, e a escrita sempre me acompanhou naturalmente.

Comecei a escrever também textos literários e a publicar – e lá se vão 21 anos desde a minha primeira antologia. Essa questão da escrita terapêutica sempre me chamou a atenção. O quanto aquilo era benéfico para mim, uma coisa para usar para o meu próprio desabafo.

Quando eu estava biografando o [cantor e dançarino] Sidney Magal, ele disse que o processo não era só biográfico literário, era análise também, porque ele começou a perceber coisas que nunca tinha percebido. Em algum momento da minha trajetória como biógrafa, resolvi me especializar em psicanálise clínica.

E como essa experiência se associou à concepção que você tinha – ou sentia – de escrita como terapia?

Fiz um aperfeiçoamento de dois anos em psicanálise clínica, justamente para ter um subsídio maior para que eu conseguisse biografar as pessoas com mais propriedade. Porque percebi que na hora de biografar eu lidava com muitas questões delicadas, traumas e caixinhas do passado que a pessoa nunca tinha aberto para ninguém.

Foi aí que nasceu efetivamente o trabalho formal com a escrita terapêutica. Na formação em psicanálise clínica, você obrigatoriamente tem de fazer um estágio em clínica social. Nesses atendimentos, comecei a entender que se eu trouxesse a escrita para dentro daquela proposta, daquele ambiente, conseguia ali resgatar memórias que só através da fala não era suficiente.

Eu já era professora de professora de produção textual, desenvolvimento literário, sempre trabalhando com a escrita, mas ainda não tinha unido essas duas coisas. Esse aspecto terapêutico eu deixava mais para meu uso pessoal.

É normal ver pessoas que vêm para a análise sem ter nenhuma lembrança da infância – quanto menos lembrança, maior o trauma, mais conteúdo reprimido, mais coisas ali que você precisa trabalhar. Fui trabalhando isso através da escrita e, ao mesmo tempo, formei algumas turmas de aulas em grupo e comecei a praticar essa metodologia para ver qual era a abrangência, o quanto isso poderia ser efetivo e para quais tipos de público.

Quais são suas principais referências na área?

No Brasil, você ainda não tem uma literatura consolidada a respeito. Não tem livros que se aprofundam nessa temática terapêutica. Nos Estados Unidos, há o James W. Pennebaker, que muitos anos atrás começou a pesquisar os efeitos da escrita na vida das pessoas. Trabalhou com muitas vítimas do holocausto. Ele começou a estudar esses grupos, a acompanhar as pessoas e ver se o fato de escrever diminuía as idas ao médico, o quanto isso melhorava a saúde mental e física.

Em É isto um homem?, do Primo Levi – um dos maiores livros que a gente tem da história do século passado –, podemos ler no prefácio que ele foi escrito com funções terapêuticas. E o que o [Oscar] Wilde fez enquanto estava preso? Escreveu De profundis, escrita terapêutica.

Então, é uma coisa que intuitivamente a gente faz, mas sem ter muitos brios sobre isso, principalmente quem escreve, quem trabalha com a escrita, que gosta de escrever; e como eu fiz também.

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