Cinema, mulheres e memória: diretoras brasileiras e a ditadura militar

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By Itaucultural.org

Uma das cenas mais marcantes de Ana. Sem título, novo filme da diretora Lúcia Murat, é um plano aberto que mostra uma inscrição na arquibancada do Estádio Nacional do Chile, em Santiago: “um povo sem memória é um povo sem futuro”.

Mulher grisalha de cabelo liso na altura do queixo aparece sentada, com os braços cruzados. Ela usa camisa cor de vinho e cinza de manga comprida e olha fixamente para uma câmera de cinema, carregada por um homem jovem, de cabelos pretos e barba. Em cima da mesa diante da mulher, há uma caneca branca.
“Ana. Sem título”, novo filme da diretora Lúcia Murat (imagem: divulgação)

A reflexão sobre o passado do Brasil, especialmente o período da ditadura militar, está na essência da obra de Lúcia Murat. De seu primeiro longa-metragem, Que bom te ver viva, lançado em 1989, a Ana. Sem título, que estreia neste mês nos cinemas, a diretora abordou diferentes aspectos de uma experiência que viveu de perto, tendo sido presa e torturada durante o regime. Como Lúcia, muitas outras cineastas brasileiras – incluindo Flavia Castro, Tata Amaral, Beth Formaggini, Emilia Silveira e Tuca Siqueira – usaram a ficção e/ou o documentário para relembrar esse duro período da história brasileira, que deixou mais de 430 mortos ou desaparecidos e durante o qual 20 mil pessoas foram torturadas, segundo dados da Human Rights Watch.

Se a ditadura militar já era tema recorrente na produção audiovisual brasileira nos últimos anos, os filmes (novos e antigos) ganharam relevância e urgência. Num país onde parte da população sai às ruas para pedir a volta da ditadura e elege presidente um homem que elogiou publicamente um torturador, a frase estampada no estádio chileno ecoa mais forte do que nunca e parece explicar, ao menos em parte, a trágica situação atual.

Duas mulheres, uma do lado da outra, aparecem na foto. A da esquerda é loira e aparenta ter entre 35 e 40 anos. Está com um leve sorriso no rosto. A da direita é mais velha, grisalha, usa óculos de grau, tem os olhos claros e está olhando para cima.
Stella Rabelo e Lúcia Murat, atriz e diretora do filme “Ana. Sem título” (imagem: divulgação)

Uma pesquisa do Instituto Datafolha divulgada em junho de 2020 confirma que a desinformação sobre a ditadura persiste. Embora a grande maioria (75%) dos entrevistados veja a democracia como a melhor forma de governo em qualquer circunstância, 10% afirmaram que a ditadura é melhor em algumas situações, enquanto 12% disseram que “tanto faz” qual regime de governo é adotado. Na mesma pesquisa, 25% dos entrevistados consideraram que a ditadura deixou mais realizações positivas do que negativas e 13% disseram não acreditar que houve ditadura no Brasil (outros 10% não souberam responder). Além disso, 49% dos entrevistados disseram não conhecer o Ato Institucional Número 5 – nem ouvir falar dele –, que levou o regime à sua fase mais brutal.

Mulher de macacão escuro, com parte das costas nuas, aparece de costas, carregando um balde na mão esquerda. Ela está diante de um muro onde uma frase em espanhol (Criar o poder popular para barrar o fascismo) aparece pintada de branco.
Cena de “Ana. Sem título”, filme de Lúcia Murat (imagem: divulgação)

Não é uma página virada

Atentas a esse contexto, muitas das realizadoras brasileiras que abordam a ditadura evitam tratar o período como página virada e preferem, ao contrário, destacar as conexões entre passado e presente. É o caso de Deslembro (2018), primeiro longa-metragem de ficção da diretora Flavia Castro, que é filha de militantes e viveu no exílio dos 5 aos 14 anos. Sua história inspira livremente a da protagonista do filme, Joana, uma adolescente que vive em Paris com a família quando a anistia é decretada no Brasil.

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