Arte e ciência: sobre resistências, morte e vida, corpos dissidentes e desejos de liberdade

by Ivana Moura e Pollyanna Diniz Itaú Cultural

Imagem do mar. Ao fundo é possível ver uma canoa, com uma pessoa dentro. A pessoa está distante, bem ao fundo da imagem, pequena na imensidão do mar azul. O céu azul também compõe a fotografia.
Das águas que atravesso: um diário de vida que ancoro, da médica Renata Meiga, com direção de Jhoao Junnior (imagem: Jhoao Junnior)

Em A trilogia das barcas, o dramaturgo português Gil Vicente articula elementos expressivos para pensar a morte: a morte como travessia, o barco, o barqueiro e o rio. Renata se apresenta como barqueira, buscando garantir as melhores condições para que o paciente faça sua travessia. “Cada vida de que a gente cuida é um livro dotado de uma biografia interessantíssima”, pontua. O trabalho carrega ética na sua estética simples e uma lição de empatia.

Cada um de sua tela, Fabiano Dadado de Freitas e Ronaldo Serruya brindam: “Saúde” – um desejo tão caro para nós brasileiros enlutados. Assim começa O futuro não é depois: uma performance palestrativa sobre Cazuza e Herbert Daniel, único trabalho apresentado ao vivo na segunda semana da programação. Cazuza (1958-1990) deixou sua marca de rebeldia, polêmica e ousadia na música brasileira como cantor, compositor, poeta e letrista. Morreu em decorrência da Aids, aos 32 anos de idade. Já Herbert Daniel (1946-1992) foi um revolucionário gay que desafiou a ditadura de direita e incomodou os pares de esquerda que “rezavam” o padrão heteronormativo. Um dos poucos integrantes da luta armada a escapar da prisão e das torturas, exilou-se em 1974 e foi o último dos anistiados. Voltou ao Brasil em 1981, tornando-se um militante essencial pelos direitos das pessoas vivendo com HIV e Aids.

Dadado repercute a vida e a obra de Cazuza, traçando reflexões que vão desde a experiência de se aproximar da morte até o fim das ideologias apregoado no pós-queda do Muro de Berlim e a patologização dos corpos dissidentes no Brasil. Lembra que foi com o álbum Ideologia, de 1988, que o músico “metaforizou a Aids”. Em “Boas novas”, a letra é direta e cortante: “Senhoras e senhores / Trago boas novas / Eu vi a cara da morte e ela estava viva”.

Tanto Dadado como Serruya experimentam a ideia e o lugar de herdeiros de Cazuza e Herbert Daniel, seus ancestrais. Serruya reproduz, por exemplo, o conceito de morte civil definido por Daniel: “Eu vivo a Aids como qualquer outra dificuldade do existir. Sou o corpo que precisa se afirmar vivo todos os dias como ato político. Eu me recuso a carregar esse óbito provisório que vocês reservaram aos corpos como o meu”.

O poder médico, arrogante, que nos primeiros 15 anos da epidemia de HIV/Aids desumanizou o portador do vírus, é criticado na apresentação. “Em ‘40 segundos de Aids’, um dos muitos escritos de Herbert sobre a doença, o foco é o despreparo da medicina”, diz Serruya ao condenar o tipo de postura que levou um médico a dedicar 40 segundos a dar o diagnóstico a Herbert Daniel. “Uma medicina fóssil, que tem mais de terrorismo do que de ciência.”

Corpos, histórias e movimentos esmiuçados

No último dia 29 de maio, a Polícia Militar de Pernambuco reagiu ofensivamente às pessoas que marchavam pacificamente no Recife contra o governo federal. Dois homens que nem participavam da manifestação foram atingidos por balas de borracha nos olhos. Um deles era Jonas Correia de França, de 29 anos, auxiliar de carga e descarga de contêineres, que estava de bicicleta a caminho de casa. O vídeo em que Jonas se senta no chão, chora desesperado, leva a mão ao rosto e chama por Deus foi incorporado à obra Figura humana – trabalho em processo a partir do estudo de Oskar Schlemmer, do grupo chileno-brasileiro Tercer Abstracto.

O coletivo parte do movimento social que aconteceu no Chile no dia 18 de outubro de 2019. Nessas manifestações, 469 pessoas sofreram traumas oculares, vítimas das forças militares. A partir de determinado momento de Figura humana, português e espanhol dividem espaço, paralelamente, num sinal de que as lutas na América Latina são, por vezes, muito semelhantes.

A imagem mostra três pessoas em um palco, cada um em uma extremidade do espaço. Eles estão fazendo movimentos corporais. No chão há um desenho geométrico que dividi o espaço em quadrados.
Figura humana – trabalho em processo a partir do estudo de Oskar Schlemmer, do grupo chileno-brasileiro Tercer Abstracto (imagem: Brendo Trolesi)

O trabalho, que se estrutura inicialmente como um documentário, reverbera: “Um país é construído pelas figuras humanas que atuam nele”, reforçando que talvez tenhamos que “criar um novo vocabulário. Compreender, do zero, a arquitetura que sustenta a sociedade”. Na segunda parte, são traçadas linhas de composição que saem da bi para a tridimensionalidade do palco. A atuação dos manifestantes, a reação de Jonas ao ser atingido e o avanço da polícia são transformados em partituras corporais descritas e reproduzidas em diferentes combinações e localizações no espaço geometrizado. Os movimentos são esmiuçados, dissecados, como se, contraditoriamente, precisássemos retirar os componentes da vida real, ampliar os distanciamentos, enxergar o jogo de tabuleiro, para aí devolver humanidade aos corpos dos manifestantes.

Já em Corpos aleatórios ou sobre a aparente aleatoriedade da vida, trabalho assinado pela AntiKatártiKa Teatral, com direção de Nelson Baskerville, o corpo se torna um jogo de encaixe, sobreposições e combinações matemáticas. A experiência reúne histórias de cinco pessoas – Dani D’eon, Larissa Nunes, Michelle Bráz, Ronaldo Fernandes e o próprio Baskerville. 

O dispositivo escolhido foi um site: com um clique, um sorteio é realizado, e o novo corpo é montado a partir de experiências fracionadas. Começamos ouvindo uma história de infância contada pelo pernambucano Ronaldo Fernandes. A próxima história, que poderia ser de qualquer um dos cinco atores, dizia respeito à adolescência; a terceira, à fase adulta; e a quarta era uma espécie de resumo da vida. São 625 possibilidades de combinações no total. 

Nesse experimento se entrecruzam a autoficção (que lida com o material biográfico para construir a dramaturgia, algo que Baskerville faz pelo menos desde Luis Antonio – Gabriela) e os questionamentos sobre a padronização dos corpos. Sim, porque esses corpos montados pelo esquema matemático são formados por fragmentos, numa combinação que talvez seja parecida com a construção dos nossos próprios corpos. Mutáveis, suscetíveis a intervenções, à passagem do tempo, ao acúmulo de experiências.

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