O que sente este desenho? 

Ilustração: Cláudia A. Terehoff Merino (@caucauilustra) Texto: Daniela S. Terehoff Merino

Passei um tempão olhando este desenho, tentando decifrar o que ele sentia antes de atrever-me a escrever algo: o que estaria este Mico-Leão sentindo, afinal? Talvez sentisse tristeza por toda a sua raça, quase exterminada com a devastação da Mata Atlântica… Ou talvez — fiquei eu imaginando —, fosse preocupação por seu próprio país, atualmente com mais de 14 milhões de desempregados! Não, não… Imaginem só! Um mico-leão-dourado não poderia saber que as coisas andam tão difíceis por aqui. Talvez ele sequer imagine um terço de tudo o que estamos vivendo e não entenda o porquê de estarmos usando máscaras atualmente. Quem sabe, então, estivesse ele apenas observando a paisagem ao seu redor (a pouca que ainda resta)? Ou ainda, quem sabe, estivesse simplesmente refletindo sobre a lógica da expressão “pagar o mico”, ouvida por ele certa vez em algum lugar… Talvez até, diante de tal expressão, ele estivesse sonhando em ficar rico se o pagassem — sem saber que “pagar o mico” foi uma frase inventada a partir de um jogo de cartas fabricado no Brasil na década de 1950 e que nada tem a ver com dinheiro. Mas isso também não faria sentido algum! Afinal, eu não consigo imaginar um mico-leão-dourado pensando em dinheiro: por mais que a sua pelagem lembre o ouro, não creio tratar-se de qualquer conexão com a riqueza, mas sim de um atributo poético que ele recebeu ao ser criado.   

Pensei, pensei, pensei…    

Desisti. 

No fundo, jamais saberei em que ele pensa ou o que sente realmente — ele ou qualquer outro animal, pessoa ou pintura feita por alguém. É assim mesmo: apenas dez por cento do que tenho diante de meus olhos é um fato (há um belo mico-leão-dourado desenhado por uma artista de talento, nesse caso) e os outros noventa por cento são invenção ou interpretação de minha parte: se ele está triste, se está feliz, se chora por sua raça inteira ou por seu país, se está intrigado, se pensa na Mata Atlântica, se olha o seu entorno, se apenas imagina o alimento que vai comer ou se está simplesmente vivendo o seu aqui e agora, sem refletir sobre absolutamente nada. Diante disso, resolvi criar a minha própria interpretação deste desenho e de minha visão dele por meio de um haicai: 

Ruiva juba d’ouro 

E olhos tristes de quem sente 

A dor da extinção. 

Poderia ter escrito apenas este haicai e enviado ao meu editor sem dizer mais nada. Mas preferi dividir com meus leitores também o que se passou por minha cabeça antes de fazê-lo – para que saibam ao menos um pouquinho daquilo que senti e em que pensei durante este processo de criação, e não precisem vagar sem absolutamente nenhuma direção pelos noventa por cento que restam deste fato: o fato de eu ter escrito especificamente este haicai, e não outro.  

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