Cerro do Ouro by Odilon Machado de Lourenço

Ali é o Cerro do Ouro

Lugar que pegou o nome por ter ouro sobre o poncho

Num tempo de não sei quando porque o tempo se esqueceu

Num floreio de carreira tão logo atada a aposta sobre um poncho tilintava

moedas cunhadas à ouro para o jogo dos cancheiros e prata pra gurizada

Depois de feito o arremate não se voltava pro início

Cancha reta, campo aberto e pingos que não abriam

Carreira é sempre carreira

Nem sempre o pingo mais bueno levava o ouro do poncho

Muito jóquei muy ligeiro corria surrando bem e cruzando ao meio

pescoço no final da cancha reta voltava em marcha ladeada

Depois da poeira sentada outras moedas no poncho

Outra parelha se vinha e ali seguiam joquiando

Muita ponta de gado foi vendida pra carreira

Algum pedaço de campo virou ouro ali no Cerro

E até talvez algum sinuelo ficou ponteando outra tropa

Meio ao pampa missioneiro chegavam gentes de longe

De todo lado se ouvia os rangidos das carretas e a cordeona de algum taura

Vinham índios, uruguaios e até algum argentino por ali jogou carpeta, ganhou

e perdeu carreira

E muito jogo de osso deu trabalho pras adagas no levantar de outros ponchos

Peleia de ferro branco relampeava junto ao ouro quando a esperteza era grande

Na ligeireza dos braços mesmo o guasca vaqueano podia deixar o pingo

pastando pelo varzedo

Se acampavam por ali em meio ao pampa missioneiro nos campos de Santo Antônio

O comércio se ajeitava pros dias de carreirada

Os que conhecem carreiras sabem bem do que é feita

Além do jogo de fato que faz ganhar ou perder

Tem churrasco, carreteiro e também tem rapadura

Doce de abóbora dali daqueles rincões e algum doce de leite

pra comer à meia tarde quando senta a churrascada

Pastel de carne buerano que não falta nessas horas e alguma canha

na guampa para o destapar das auroras

Quem chegava prevenido trazia charque das casas e muito boi berrou grosso

na talagada da faca nas carneadas ali no Cerro

Tinha também algum brique feito com panos de prato levados pelas xiruas

Uma pontilha bordada numa moda diferente já dava vozes de brique

E assim iam trocando, conversando e se entendendo em meio aos panos do brique

Por certo algum casamento se arranjou nessas conversas nos dias de carreiradas…

Carreira, quem quer carreira não fica olhando de longe

Se enfia em meio às conversas de quem vai lá pra correr

Vai olhando a cavalhada

Vê o estado, olha o pelo e não se engana com sarna feita por faca de peão

Cerravam olho no olho, no bigode ou no facão

Quantas encilhas perdidas nos gritos dos mais afoitos que bem montados chegavam

e por azar do costume pelo ouro se acabavam até ficar só o cavalo

E iam dando as tiradas ali no Cerro do Ouro

Cancha reta, campo aberto e pingos que não abriam.

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