Medo: Daniela Paoliello / Itaú Cultural

Fotografia colorida de areia de praia com mar e uma parte do mar está iluminada com uma pessoa ajoelhada
(imagem: Daniela Paoliello)

Observação 1:
São 18 horas. O vento é quente e úmido. Mastigo a areia fina que se deposita em minha boca contra minha vontade. Meus dentes rangem. Entre meus lábios um deserto inteiro. Sentir na boca o gosto do tempo. Sobre os olhos o peso da paisagem. Aquilo que coloca o corpo em movimento mais intenso é também o que lhe exaure. Um excesso de sentido que perturba: corpo em excesso. As nuvens anunciam uma tempestade. Os olhos se acostumam aos poucos com a escuridão. Três silhuetas se aproximam. Boa noite. Coração desacelera aos poucos. Dois clarões em cada ponta da praia.

Observação 2:
Seis moedas jogadas ao acaso. Na natureza, água sobre trovão representa uma chuva com trovoada, que em situações limites remete aos cataclismos […] remete ao Caos Primordial, que antecede o surgimento do Universo.¹ O trovão indica um furo no escuro, uma ruptura, uma força explosiva que rompe. Água representa dificuldade, armadilha, perigo exterior, um obstáculo que limita e fortalece ao mesmo tempo a atividade ligada ao trovão. O ideograma Zhun aponta para uma força criadora e originária, é o ideograma da germinação.

Observação 3:
São 3 horas da manhã, Lua quase cheia, maré baixa, vento forte, nuvens densas, gosto de cajá-manga e cachaça na boca. Jânio me pergunta: você se lembra do dia do seu nascimento? Se não sabemos nosso início, se não conseguimos lembrar de como viemos ao mundo, como vamos saber o fim?²

Observação 4:
Das coisas que nos separam com abismos. Medir a profundidade da distância.

Observação 5:
Você gostaria de ler o livro da sua vida?³

Observação 6:
Fotografar sem ver a cena. Dupla cegueira. “Não ver” pelo gesto de tornar-se objeto da própria captura, dar-se à câmera como imagem, perder o controle do olhar. E “não ver” por uma questão óptica, pela ausência de luz. Processo escultórico negativo de escavar uma forma no escuro. Fotografar cenas que apenas a câmera é capaz de revelar, que o olho não alcança. Escavar, abrir as formas visíveis.⁴ Caminho pela praia buscando resquícios de brilho. Preciso deixar que meus olhos se acostumem à escuridão.

Observação 7:
O artista deve estar sempre afetado pelo risco.

Observação 8:
A conversa com Jânio prossegue e ele diz: Se não houvesse Lua nem estrelas, seria tudo trevas. E, se alguém acendesse um isqueiro, qualquer um que visse, mesmo de longe, seria atraído pela luz.

Observação 9:
Cada um guarda mais o seu segredo, sua mão fechada, sua boca aberta, seu peito deserto, sua mão parada, lacrada, selada, molhada de medo.⁵

1. I Ching, o tratado das mutações, de Wu Jyh Cherng.
2. Jânio, artesão morador de Santo André, na Bahia.
3. Livro de Líbero, Alfredo Nugent Setubal.
4. A semelhança informe: ou o gaio saber visual segundo Georges Bataille, de Didi-Huberman.
5. “Na hora do almoço”, música de Belchior.

link Itaú Inventário=Medo


foto de Daniela Paoliello

Daniela Paoliello

Daniela Paoliello é artista visual e reside em Belo Horizonte (MG). É graduada em ciências sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e doutora em artes pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Foi contemplada com o XIII Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia por meio do qual publicou o livro Exílio, em 2015. Em 2018 foi premiada como artista destaque do Salão de artes novíssimos 2018, da Galeria Ibeu (RJ). Em 2019 passou a integrar a coleção do Museu de Arte do Rio (MAR). Em 2020 publicou o livro Que horas são no paraíso?. Nos últimos anos vem desenvolvendo sua pesquisa em torno da autoperformance feita exclusivamente para a câmera – fotografia e vídeo – e da produção de uma autoficção. Ela se interessa também pelas relações entre corpo e natureza.

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