Ana Martins Marques: 100 poetas brasileiros

By Ana Martins Marques

AQUÁRIO

Os peixes são tristes no aquário
mesmo que não conheçam o mar
alguma coisa neles quer o amplo.

No poema
morrem sem água
na primeira estrofe.

QUINTAL

para a tristeza de uma vida sem colheita
para a indignidade da decoração
essas plantas foram vindo
como cães domesticados
cada uma de uma cor.

 

O DESEJO

Sou alérgica ao desejo
como ao mofo, ao mar,
aos gatos, ao leite,
aos lugares fechados, a certas flores.
Sou alérgica ao desejo –
doem-me os olhos,
incham-me as pernas,
o sexo arde
como uma caixa de abelhas
lacrada.
O desejo acende-me
como uma casa incendiada;
o desejo me deixa
sem mais nada.

 

RELÂMPAGO

Certas máquinas são feitas para o esquecimento.
Há dias em que sinto trabalharem em mim
as confusões do relâmpago.
Então coleciono letras, órbitas, radares.
A linha que me liga aos quadris desta noite imensa
é a mesma que sai da garganta aberta do dia.
Vejo as estrelas desenharem-se em constelações,
sei muitas coisas rápidas, precisas,
por alguns instantes.





Ana Martins Marques

Ana Martins Marques nasceu em Belo Horizonte, é graduada em Letras na UFMG e tem doutorado em literatura comparada pela mesma universidade. É autora dos livros de poesia A vida submarina (Editora Scriptum, 2009), Da arte das armadilhas (Companhia das Letras, 2011), O livro das semelhanças (Companhia das Letras, 2015) e Duas janelas, escrito em dupla com Marcos Siscar (Luna Parque, 2016).

foto: Rodrigo valente



Os poemas a seguir são alguns dos nossos favoritos dos três livros da poeta publicados até 2015.

poemas de A vida submarina (Editora Scriptum, 2009):

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