O confessionário

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Por: André Lima
@oconfessionario_ 

Em algum momento da semana anterior, inspirado pelo que eu ouvi de um aluno, fiquei reflexivo. Instigado por sua professora, o garoto teria que responder sobre quem ele gostaria de ser. Por minha vez, mergulhando em águas passadas, eu fiquei pensando que já quis ser Sócrates, Raul Seixas, Renato Russo, Arnaldo Antunes, Johnny Rotten, Joe Strummer, Bob Dylan, Rubem Fonseca, Nelson Rodrigues, John Lennon (pensando bem, não. Eu acho que não gostaria de aturar a Yoko e nem de levar três tiros de um maluco).

Voltando ao menino em sala, ele disse com a voz trêmula que gostaria de ser a Xuxa. Estando em uma escola com valores militares, ele foi logo questionado. «Meu filho, a Xuxa é uma mulher! Você é um homem! Não pode!» «E por que não pode?» «Não pode porque nós prendemos e arrebentamos se formos contrariados» «Ah, sim! Entendi perfeitamente» e tendo entendido perfeitamente preferiu dizer que queria ser presidente da república. 

No meu caso, eu não continuei pensando naqueles que eu já quis ser em minha existência, mas sim em quem eu gostaria de ser hoje em dia. Os atributos deveriam passar por tradição, família e propriedade. Há que se pensar em seguir legados, cuidar daqueles que carregam o mesmo sangue e cultivar posses. Não necessariamente nessa ordem. Até porque a ordem é um artigo em falta nas prateleiras do hipermercados. O progresso, embora não seja original, ainda dá para adquirir no Shopee. 

O caso é que virei e revirei de ponta-cabeça o pasta da memória no HD cerebral. Doeu, doeu, doeu. Ainda que eu esteja em idade madura, será que não há ninguém que me inspire?
Será que eu não tomaria gosto por algum vulto de nossa cultura ou política?
Um jogador de futebol?
Eis que a minha resposta surge na tela de um programa jornalístico da Rede Globo, o RJ TV. 

Muitos pessoas de fora do Rio de Janeiro não devem conhecê-lo. Se não o conhecem, deveriam fazê-lo o quanto antes. Como eu dizia, ele surgiu na tela com sua habitual elegância e postura de quem está uns dez metros acima da patuleia. Cabelos bem penteados, óculos com lentes sempre limpas, camisas que parecem ter saído da fábrica direto para o corpo e um cheiro de um sabonete Senador capaz de ultrapassar a distância entre o telespectador e o estúdio de TV. O brasileiro fala mal de tudo. É o esporte mais popular no país. Qualquer um queria marretar professores, o trânsito, as construções irregulares, o horário dos trens da Supervia, a falta de leite na média, a cara feia dos motoristas de ônibus na hora da nota de cinquenta, o galo que não canta antes do sol sair… Queria criticar e ter a cara de quem acabou de sair de um banho de meia hora. Maldizer toda e qualquer coisa como a personificação da honestidade e ainda ser pago por isso?
E já pensaram na possibilidade de dizer algo errado e não ter que pedir desculpas por isso?
Eu queria ser Edimilson Ávila.

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