Pós?

by Guilhermine Carvalho Link Blog

“Pastor, eu andava vazia, com essa sensação de que me faltava alguma coisa. Andava com esse pessoal do rock que bebia, fumava droga. Eu mesma nunca usei essas coisas, mas bebia bebida alcoólica, com calmante, mas droga eu nunca usei. Mas era tudo vazio, sabe pastor? Eu não tinha amigos de verdade, eu não tinha nada de verdade, me faltava alguma coisa…”

E foi aí que surgiram os rappers levando um peso denso, carregado de swing, levando a vida para o canto mais ermo do que fosse carregar qualquer coisa idiota, o peso deles era suave. Depois é que a coisa ficou difícil de entender, ou fácil em demasia também, foi quando os punks começaram a tocar um forró e os skatistas dançaram animadamente. Talvez o errado ali fosse eu e essa minha conduta mendicante de amigos, mas eu vi ali, naquele ínterim, uma coisa absurdamente interessante, mas creio agora que a coisa ficou realmente maluca mesmo quando aquele ser androgenamente mulher foi constatado. Não havia culhões, ou só os havia. Só sei que rolou um comentário sobre o hip-hop latino-americano feito por mulheres e tinha também aquele cara em mangas de camisa, bermuda justa e um capote a la Gogol, num calor de 28ºC. Quem sabe ele tinha realmente uma gripe em vista, mas o mais certo era que sua mãe o obrigara a levar o capote para um passeio e ele – o capote – devia pesar uns três quilos pelo menos.

Mas era certo também que a caracu quente foi uma coisa à parte e os cigarros um atrás do outro prejudicaram um pouco a fala e o diálogo, mas eu bebi e fumei ainda. Tinha aquela crise de relacionamento rolando também, o cara com cara de bravo, a mina com cara de tacho, uma bunda que passou coberta por um pequeno pedaço de pano preto e a quase mão na cara do cara e mais cara de tacho depois. Aí a hippie sentou ao meu lado e perguntou “vai querer?” e eu respondi “por amor ou por besteira?”, mas ela me disse que a carruagem já virava abóbora e falou que não era ela e sim ele.

Os dois carros com o som às alturas, mandando ver no rap, pareciam discos-voadores em formato de GTI. E o pior é que deveria ter entre quinze a vinte extra-terrestres no meio da gente. Mas foi doido. A parada tava muito louca mesmo. E o cara pediu para eu ajudá-lo a mijar porque ele tinha medo do escuro, aí eu falei que urina não era o meu esquema, mas ele levou numa boa e conseguiu que uma garota colorida o levasse até a árvore mais próxima.

Tinha também aquelas prostitutas muito gente boa tentando descolar um troco e o moleque de rua cheirando cola do meu lado e dizendo qualquer coisa sobre “a coisa”. Não peguei a parada, mas dei uma badagada no lance e entendi depois o que ele tava querendo dizer, porque “a coisa” tava lá mesmo, paradona e rindo da gente. O foda mesmo eram os PMs tirando uma chinfra e rodando que nem um bando de pombos movidos pela inércia do bigodudo que ia na frente. Mas esse nem parecia pombo não, lembrava mais uma morsa. Mas tava divertida mesmo a parada.

A harmonia tava massa, eu dizia z e o pessoal sacava todas as outras letras do alfabeto, só quem captou o z mesmo foi aquela garota que veio de bicicleta e queria dar uma de qualquer forma na noite. Eu disse que ela era muito doida e que a coca-cola dela tava quente, mas ela “e o pior é que nem era coca-cola”, mas eu “tudo bem, o que vale é o calor mesmo”.

Quando os punks começaram com o Bezerra da Silva é que a coisa pegou fogo mesmo, todo mundo levantou e começou a seguir em marcha rumo ao pagodão que tava rolando na 203. Eu peguei aquele pedaço de pau que tava jogado no chão, tirei a camisa e fiz nosso porta-estandarte. Fui no guidão da bicicleta da garota segurando o porta-estandarte e o pessoal entremeava algumas loas e lundus entre um Moreira e um Bezerra, porque ao grupo já havia se misturado, também, o pessoal do maracatu.

Pois é, quando a gente chegou na 203, aquele bloco coesamente incoerente, parecia um baile de máscaras de 1930. A gente chegou botando fogo no pagode e todos juntos cantando em coro:

Angústia, solidão

Um triste adeus em cada mão

Lá vai meu bloco vai

Só desse jeito é que ele sai

Na frente sigo eu

Levo o estandarte de um amor

Do amor que se perdeu num carnaval

Lá vai meu bloco e lá vou eu também

Mais uma vez sem ter ninguém

No sábado, domingo, segunda

E terça-feira…

E quarta-feira vem o ano inteiro

É sempre assim

Por isso quando eu passar

Batam palmas pra mim…

Foi lindo. O pagode não parou, todo mundo sambou e rolou aquele beijo inesquecível entre o vocalista do grupo de rap e a punk de cabelo rosa bem no meio da rua. E os aplausos e a caracu quente sendo jogada em cima de todo mundo. E a feminista dançando o funk, e o pagodeiro cantando o hino da internacional comunista junto com aquelas vegetarianas. Foi lindo. Realmente foi lindo. Foi o bloco da solidão acompanhada mais belo que eu já vi na minha vida.

Não fiquei com ninguém, nem teve tempo, a vida precisava ser vivida daquela intensidade, sem papas na língua, sem porém, portanto, nem talvez. E no fim eu disse mesmo pro pessoal que tava fumando um: “passe livre já, passe livre já!!!!”.

“Aí pastor, eu tava me sentindo amarrada mesmo, uma coisa estranha, esse pessoal do rock parecia que me sugava toda força, aquela coisa de fumar droga mesmo, sabe? Eu não tinha mais ânimo pra nada, queria mesmo era morrer, tomei até q-boa, sabe pastor? Mas quando essa minha prima me chamou pra conhecer a igreja dela, tudo começou a mudar na minha vida…”

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