a Turner por João-Maria

Um clarão tornea de luz a égua negra que parte a rés de Marte esvoaçante.  Adeja essas películas cansadas, fome liminar ao propósito; ao desejo. Tudo o que há na tarde ferida é o hálito desenfurnado ventante e uma sucessão odontóstoma  de poentes. O falo no teu centro cairá no lago e serpenteará um novo…

a Fattori por João-Maria

Traduzir é uma tarefa pesada:o que colecionámos do azul-escuroentregámos à mágoacomo organismos peremptóriose desgarrados. O que colecionámos da mentiraestregámos à história, ou, nem isso,aos nomes das coisas, que tão poucocondensam de nós, e desse poucoconjuram um nós fraco e incompletoque apenas retornará a sicom uma herança de gerânios secos;um legado de pensamentos evoladose espraiados como…

a Renoir por João-Maria

Havia uma expressão em Bouja’d que nunca se dizia, era silêncio, um silêncio ininteligível que doía como o extermínio do mais diminuto insecto. Diz-se, ainda, que antes de ser silêncio era uma hipóstase rememorada numa folha da árvore perenifólia cuja canópia cobrira todo o Sáara enquanto ainda era selva, mas não se entendia, de tão…

a Miró por João-Maria

  Há tanta cor adestrada pelo punho que delas conjura substância, tanta forma vencida e por vencer. E tu, afinado à afinação de tudo isto, virás ao vermelho do apodrecimento ou ao verde da loucura, já de joelhos húmidos, e perguntarás por aquele dia monocromático e disforme, aquele dia que, como um cordão de linho…

a Goya por João-Maria

«a proporção, a proporção, tudo na sua proporção» por-vezes creio, indignamente, que um ferno cresce entre o músculo do meu braço direito, estiolado, não é curioso pensar que crescesse deste modo, afinal, toda a escuridão precisa de luz que a contraponha. O perecimento da vontade guarnece o torpor com túlipas cinéreas, adornos nas rachas do…

a Restout por João-Maria

É o sonho de Morfeu, a luz emitente, indentada, rebatendo num quarto encarnado, puxando a tessitura dos ângulos vivos, ser Homem no murmúrio, talvez nem isso, talvez nem Homem; um centro de névoa miserável, dúbia de si própria que, incansável, empedernida, se paralisa. Uma Roma isolada e distante dos dias, faminta dos impérios, na penumbra…

a Toulouse-Lautrec por João-Maria

Há um tempo em que somos escolhidos pela elação; o que é real move-se — um vulto bonito — e é, de repente, apenas isso, apenas vulto — apenas o que é bonito. Os ângulos açambarcam o frio, e somos d’um todo imediato; um lajedo de sonhos breves; e a sombra úbere onde regeneram os…