Em que pensas, urso? – Por Daniela S. Terehoff Merino

el
Desenho de Cláudia A. Terehoff Merino

Em que pensas, urso?

Em meio à extensa neve do Círculo Polar Ártico, um urso-branco segue seu caminho solitário.

Poderia estar meditando sobre tantos assuntos diversos nesse instante!

Pensando sobre as vantagens de possuir pelos sem nenhuma pigmentação e, com isso, camuflar-se muito bem na neve. Ou, pelo contrário, recordando o fato de não gostar da própria cor justamente por ficar camuflado quando “O bom seria que todos no mundo me enxergassem!”. Fosse ele capaz de ler, se orgulharia ao ver-se retratado em tudo quanto é livro, site, blog e enciclopédia como sendo “O maior mamífero carnívoro terrestre”! Quem sabe, ao ler isso, resolvesse até “dar um Google” e fazer pesquisas como: “Os ursos polares mais famosos de todos os tempos”, ou “1001 formas possíveis de um urso-branco melhorar as próprias técnicas de caça”. Principalmente porque “o meu olfato é tão ruim! Aliás, tenho tantos defeitos! E se eu pudesse melhorar como urso? Será que há vídeos no youtube sobre esse assunto?”. Fosse uma fêmea, talvez ponderasse agora acerca da baixa taxa reprodutiva dos ursos-polares mencionada no site Brasil Escola ou o longo período de gestação da espécie, calculado habitualmente entre 195 e 265 dias, o que quer dizer que “Senhor! Demoraria quase dois terços de um ano para nascer! E eu não posso perder esse tempo! Além disso, têm as dores, o cansaço, os enjoos, o meu corpo, a minha vida! E futuramente, é claro, a educação, as dificuldades para encontrar alimentos para o filhote, protegê-lo de possíveis predadores e… Sem contar que vai precisar de um irmãozinho mais tarde para ter com quem brincar. E por causa disso vou precisar ganhar barriga outra vez! Por outro lado…”, pensaria ela ainda, “parece ser grande a porcentagem de um urso polar ter dois filhotes de uma só vez… Bem, isso facilitaria a parte do irmãozinho e do tempo de gestação. Ademais, pelo que estou lendo aqui, a nossa espécie vive em risco atualmente: já entramos até para a Lista Vermelha! Então se eu não tiver filhotes, o que será de nós, ursos, no mundo? É uma baita responsabilidade tomar uma decisão dessas…”.  Mas, talvez, diferentemente de tudo isso, o urso da imagem estivesse agora unicamente lembrando-se da última foca que comeu ontem; ou pensando “O que vou comer amanhã?” ou, ainda, tentando se esquecer do peixe que escapou por entre as suas patas quando ele piscou com o olho esquerdo sem querer na tarde de hoje após o surgimento de um cisco (“Juro que não foi distração! A culpa é do cisco, senhores, não minha!”). E se por acaso, alheio a tudo o que escrevo aqui, surgisse ao longe um raio de sol, o urso certamente refletiria de forma sofisticada sobre a iminente chegada do verão:  “Hummm….”, pensaria ele, “Ainda bem que a minha pele preta ajuda na absorção do calor, caso contrário eu estaria perdido! Mesmo assim, esse sol quer dizer que logo terei de sair daqui e buscar outros lugares onde haja mais gelo. Ah, como é difícil essa vida de animal polar! E se eu não conseguir encontrar um local bom o suficiente onde viver? E se lá, nesse novo lugar, não houver buracos por onde as focas tirem os seus focinhos para fora em busca de oxigênio e, consequentemente, eu não tiver alimento e morrer por falta de energia? Além disso, existe o impacto das mudanças climáticas por toda a parte, as interferências humanas me afetando e… A questão do petróleo, por exemplo, ficando no ambiente e contaminando os meus pelos! Ou seja, a gente não pode nem se lamber em paz que, PUF! Lá se vai um urso intoxicado! Mas eu não quero desaparecer do mundo assim, tão novo, por algo tão insignificante como me lamber! Quero chegar a pelo menos 22 anos! Ainda pretendo realizar tantos sonhos!”. Com isso, fosse ele um urso-artista, estaria agora mesmo influenciado por tais pensamentos, cogitando pintar seu autorretrato para deixar uma marca no mundo antes de partir. Ou provavelmente se perguntasse “Será que alguém nesse mundo se inspira em ursos polares como eu para fazer arte e registrar que algum dia nós existimos?”. Nesse último caso, se por ventura ele conseguisse investigar uma resposta para tal questão e se deparasse com o desenho que aqui se encontra, poderia acabar essa história de três maneiras distintas: feliz pelo fato de ter sido registrado por uma jovem que sequer o conhece e mora bem longe do Ártico, na cidade de Ribeirão Píres, no Brasil; intrigado artisticamente por ver como a neve ao fundo da imagem se parece com uma espécie de mar branco e infinito, refletindo a sua solidão; ou simplesmente frustrado, pois sem pensar em arte alguma, olharia a própria imagem desenhada e diria apenas: “Como estou magro! Pareço ter uns 400Kg!” ou “Sou tão gordo! Devo estar com uns 585 Kg! Está na hora de um regime…”. Evidentemente que tudo isso se daria a depender de sua própria percepção “ursínea”.

Mas, ufa!

Ele é apenas um urso.

Olha, portanto, para os leves raios de Sol que vem surgindo ao longe, levanta cautelosamente a pata dianteira da direita, respira o ar puro que o rodeia e… segue em frente, sem pensar, imponente e majestoso como a natureza.

Deja una respuesta

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Salir /  Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Salir /  Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Salir /  Cambiar )

Conectando a %s