Desenho de Cláudia A. Terehoff Merino

Ser urso ou ser coelho?

Após uma infância e juventude inteiras comendo, dançando e pulando serelepe, de repente alegou cansaço, foi emudecendo e parou de sorrir. Havia perdido o gosto pela vida bem assim: sem mais nem menos.

Jogava a culpa no sono e nas dores; renunciou às festas e andanças; foi se isolando, se encolhendo e inclusive se fechando como um botão de rosa ao contrário até que, por fim, querendo deixar de existir de vez, simplesmente encostou a cabeça no travesseiro, fechou os olhos e, pensando estar em paz consigo mesmo, hibernou por dez longos anos.

             Já era urso quando abriu os olhos novamente.

Ali, cansado até de tanto dormir e ainda deitado e olhando para o teto, pôs-se a refletir:

“Hummm… Pelo visto a vida continua sem graça. Tudo igual. Igualzinho! A não ser pelas… pel… ora essa, risadas? De onde será que isso vem? Por acaso terei vizinhos novos?”

O barulho vindo do jardim o fez querer levantar-se e espiar pela janela.

Lá fora, leves e alegres – verdadeiros coelhos! – todos pulavam para lá e para cá, brincando e fazendo estripulias, cantando a felicidade de viver.

             “Bobagem!”, foi seu primeiro pensamento ao ver e ouvir tudo aquilo. “Eles aproveitariam bem melhor se dormissem dias inteiros como eu. Aliás, nem sei por que foi que acordei e, pior ainda: levantei da cama! Bah! Ora de voltar a dormir.”

              E o urso já se dirigia para a cama outra vez, quando ouviu um canto de parabéns seguido por algumas frases de convidados sobre a entrega dos presentes que se daria logo mais. Assim que aquilo entrou por seus ouvidos, pôs-se a recordar sem querer  antigas falas aleatórias de velhos amigos seus:

             – É por isso eu nunca comemoro o meu aniversário: para mim todos os dias são presentes e devem ser festejados!

– Talvez no futuro, meu querido, você olhe pela janela e se pergunte se a vida valeu a pena…

– Presentear os outros em dia de festa sempre revigora a minha alma, amigo! A sua não?

Lembrando de tudo aquilo tão subitamente, o urso coçou a cabeça. Alma… Teria ainda alguma coisa chamada “alma” dentro de si após esses dez longos anos de hibernação?

Decidido a tirar isso a limpo, olhou para a bagunça de sua casa, pensou um pouco e em seguida andou para cá e para lá em busca de qualquer coisa que ainda estivesse em bom estado e que ele pudesse levar como presente para o aniversariante. Assim que encontrou algo com essas características dentro de uma caixinha, colocou sobre a cabeça um pequeno chapeuzinho triangular que estava em seu guarda-roupa mofado e, embora não tivesse um convite para a festa, saiu de sua própria casa e, pé ante pé, adentrou o jardim alheio.

Não demorou muito a encontrar o aniversariante, quietinho e aparentemente triste, a um canto do jardim, como se a festa sequer fosse sua. Aproximou-se. Sem dizer qualquer palavra, estendeu-lhe o bolinho de biscuit que ele próprio ganhara de uma amiga de infância há incontáveis anos e que havia guardado por toda a vida como uma forma de ter consigo sempre uma saborosa recordação do passado. 

O bolinho decorativo estendido, os dois apenas se olhavam.

“É mesmo pra mim, seu urso?”, gostaria de ter dito o pequeno. Porém, sentindo-se emocionado e até um pouco confuso perante a situação, este preferiu ficar em silêncio, os olhos falando o que a boca não era capaz de expressar.

Ali, paralisados, trocaram olhares por algum tempo. Um não compreendendo o porquê de o outro estender-lhe um presente, sendo que nem ao menos se conheciam. O outro, ansioso por descobrir se ainda era um ser digno de possuir uma alma que pudesse ser revigorada de algum modo. Até que, por fim, o presente foi aceito e o urso sorriu como há muito não fazia.

“Ah! Como é bom viver!”

A seguir, sem dizerem qualquer palavra, ambos se distanciaram e seguiram seus próprios caminhos.

Naquela mesma noite, o urso cantava enquanto fazia um chá e arrumava a casa, sentindo-se animado, embora sem compreender a razão dessa felicidade revigorante. Enquanto isso, o pequeno aniversariante admirava o seu novo objeto decorativo posto sobre a estante e, feliz da vida, pensava: “Achei que ficar mais velho fosse ruim… Mas agora, depois de ver que até um velho urso participa de festas, usa chapeuzinho de aniversário, dá presentes e sorri daquele jeito bonito sem nem conhecer o dono da festa, até me deu mais vontade de viver. Ah, como é bom! Como é bom!”

E muitos anos se passaram após este seu aniversário. Mas graças à lembrança daquele urso e o bolinho de biscuit que estava diariamente diante de seus olhos, este jovenzinho jamais deixou de ser coelho.